Crônicas

Perdas & Danos A AliançaBaianinho Chico e CelinaÉ  muito difícil

Perdas e Danos

Peru assado

Pra falar dos dribles que João Monstrengo dava na mulher é preciso mostrar um pouco do seu caráter, da sua esperteza. Nascido pobre, teve uma infância em preto e branco, sem aventuras nem emoções. A adolescência, pior ainda. Por falta de recursos, os pais não puderam custear os seus estudos. Mesmo nunca tendo ido à escola, João Monstrengo aprendeu a fazer contas. E foi aí que se enriqueceu.

Juntando cada moeda que lhe chegava às mãos, formou, aos 25 anos, um capitalzinho miúdo para o comum dos mortais e graúdo para os mais vivos. Comprou uma pipoqueira e enfiou a cara no trabalho. Não almoçava, jantava pedaços de pão, dormia no chão, andava de chinelos emprestados, não bebia, não fumava, não fazia aquilo, não gastava nada.

De pipoca em pipoca, ficou rico. Abriu conta no banco e briquitou, briquitou, até achar uma mulher que topou casar-se com ele. Para dizer a verdade, Lalá era uma putinha que serviia no cabaré de Roxa, mas uma putinha decente, de linha, digna como a mais fiel das mulheres. De tão apaixonado e contente, João Tristonho fez um festão no casório. Gastou mais que deputado mineiro na boate Sagytarius. Mas gastou satisfeito.

Já na noite de núpcias, sentiu o calor da disputa. "Bom demais!", repetia pros amigos. Trezentas e trinta e oito mil e duzentas e quinze rela-relas depois recobrou os sentidos e voltou à batalha. Só que não mais para o pool de pipocas, mas para a contravenção. Por influência da agora dona Lalá, montou uma banca de "empréstimos de emergência".

Os juros que cobrava eram tão altos que nem uma escada Magirius, do Corpo de Bombeiros, conseguiria alcançar. Para dizer qual era a taxa, João Tristonho abria as duas mãos e as balançava duas vezes. Se o freguês não se assustasse, emendava: "As quatro, mais as sombras no chão". Quer dizer, 40%. Se o cidadão era mais besta ainda, juntava os dedos dos pés e os juros subiam para 50%. Daí para mais.

Não foram poucas as vezes em que tomou a casa, o carro, o telefone, a fazenda, o lote, o botijão de gás, a geladeira e até o urinol do devedor. Quando o pobre coitado dizia que não tinha nada, mas nada mesmo, João Monstrengo tomava a mulher dele. Isto mesmo: zerava a dívida - cujo capital já fora zerado inúmeras vezes -, mas ficava com o patrimônio conjugal do inadimplente. Com isso, juntou muito mais dinheiro e um monte de mulheres. Pretas, brancas, vermelhas, amarelas, pardas, marrons, rosas, boninas, mulheres para todos os gostos, de todas as cores, tamanhos e formatos.

Durante muito tempo, João Monstrengo conseguiu manter seu harém escondido da ciumenta dona Lalá. Um dia, a malandragem veio a furo. Puto por ter os seus bens levados à praça pública pela ganância do agiota, professor Serapião, decano da cadeira de Português na Escola Normal, armou um flagrante colocando dona Lalá na fechadura, que escancarava mais uma sessão de pouca-vergonha do monstrinho, agora com a mulher do gerente do banco. Olhou e saiu, horrorizada!

Lá pelas duas da madruga, João Monstrengo chegou. Acordou a mulher com uns tapinhas no bumbum e pediu a ela para esquentar uma água. Não estava agüentando de cansaço, tadinho! Os pés estavam cheios de bolhas de tanto andar, disse. "Pois sim!", deu com a cabeça a mulher.

João Monstrengo tirou a roupa e se deitou de barriga para cima, nu e cabeludo. Dona Lalá demorou e ele caiu no sono. Calmamente, como uma montanha de gelo, dona Lalá pegou a panela quando a água já subia pelas paredes de tão quente. Pé ante pé, ca... mi... nhou até o quarto, riu baixinho e despejou a panela sobre o saco de João Monstrengo.

Ai!!!