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Eu tenho Reginauro Silva como um dos nossos melhores intelectuais escritores.
Sinto falta dos insuperáveis artigos e das deliciosas crônicas do Régis,
quando ele desaparece da nossa imprensa – o que tem sido comum, não
sei porquê.
Existem muitos outros
ótimos escritores, como escritoras, nestes nossos Montes – Como todos
sabem. Não vou citá-los nominalmente, pois, a cabeça já meio fraca,
é certo que me esqueceria de alguns e as omissões acabariam por me triturar.
Apenas junto ao meu ora homenageado os também eletrizantes Georgino
Júnior e Elton Jackson, igualmente gênios da literatura, da criatividade
e, principalmente, da gostosíssima irreverência, como da coragem de
exporem as perfiadas maquinações da alma, que nós outros tanto mascaramos.
Constituem trio que merece, sim, a louvação e o aplauso maior dos montes-clarenses
e das gentes de outros nortes.
Não conheço – Régis
-, confesso, um dos seus trabalhos maiores, o caso da Formiguinha
que queria ser cidade e virou princesa, peça já encenada várias
vezes no nosso Centro Cultural e em teatros alhures. Ainda assim, sem
ver sua obra-prima, você é meu ídolo na literatura destas bandas. Sua
inteligência, a verve que impulsiona sua criatividade, sua elegante
e corajosa irreverência me fascinam, como empolgam a tantos quantos
o lêem.
Puxação de saco?
Não! Não tem porquê. O puxassaquismo se prende a interesses menores,
como dinheiro ou poder, por exemplo. E este meu ídolo não possui nenhum
poder, nem gaita... A admiração advém da qualidade intelectual do admirado
– no que sou seguido por legião de leitores.
Ando lendo, Reginauro,
com gosto, a história (?) das suas 74 paixões. Mas, permita maxima
venia, duvido que sejam só mesmo 74... Muito menos esquentado e
sempre tímido, acanhado, mas romântico inveterado, já amei mais de 80!
Até chegar em Shirley, o grande e verdadeiro amor de minha vida, meu
porto seguro. Os seus amores, caro Régis, devem ter sido pelo menos
cento e muitos. Deixe a modéstia de lado, homem, e confesse o crime!
Confissão registrada,
despeço-me, registrando também, e com mandado implícito de seus tantos
apreciadores, a recomendação de que jamais se afaste desta sua terra
boa. Se for preciso ficar longe materialmente, que assim seja. Mas não
desapareça da imprensa, grande escritor!
Reivaldo Canela – Advogado, escritor e membro da Academia Montes-clarense
de Letras
(*) Artigo extraído do JORNAL DO NORTE DE
MINAS, de Montes Claros, edição de 17/08/98, página 2.
Prefácio
Este livro foi concebido,
na melhor das intenções, ao longo de quatro décadas. Portanto, está
acima de qualquer suspeita menopauseana. Todas as pessoas nele citadas
tiveram conhecimento prévio de que, algum dia, seriam tornadas públicas,
fossem estatais, paraestatais ou privadas. Ou será que alguma mulher
do mundo se relaciona intimamente com um jornalista achando que vai
ter sua identidade eternamente mantida em off? Ôche!
Ao longo dessas quatro
décadas tivemos o cuidado de arquivar - no winchester do nosso
computador mental - todos os momentos hilariantes, divertidos, dramáticos
e, sobretudo, polêmicos, que compõem o poético - e às vezes fulminante
- acasalamento entre machos e fêmeas. Houve gozos, eu sei, e o Martinho
da Vila também. Houve produções independentes, como diria a Xuxa. Houve
material para produzir mil e uma noites de ternura, nove e meia semanas
de amor, ligações perigosas, muitas tentações e até capas de Playboy.
Sim, porque todas as mulheres que desfilam neste livro fariam inveja
a qualquer Débora Rodrigues dos sem-terra da vida. Ou à asquerosa Sharon
Stone. Ou à desbocada Maddona e à gulosa Monica Lewinsky.
Também não entram
neste tratado figuras fantásticas como dona Laura, Rege, Naura, Sussuca,
Vera, Toquinho e Raquel, nem as gatíssimas Tatiana e Juliana, que aí
já não é amor, é paixão. Vamos nos ater às lindinhas de Almenara, Montes
Claros, Ouro Preto, Belo Horizonte, Bocaiúva, Rio de Janeiro, Janaúba,
Espinosa, São Paulo, Oropa e Bahia. Parafraseando Vinicius de Morais:
que me perdoem as atuais, mas as 74 são fundamentais.
Pois foi assim, após
incontáveis ejaculações e mil e uma masturbações sócio-sentimentais,
que ultrapassamos a marca das 50 mulheres de Darcy Ribeiro e conseguimos
reunir, entre duas centenas, as 74 mais mais, com bilhetes, depoimentos
e aventuras jamais imaginadas por um egresso do Movimento Machão Mineiro,
de fazer inveja ao mestre Jacaré, à Banda Mole e a Marta Suplicy. Trata-se
de uma santa sacanagem, diga-se, mas uma sacanagem politicamente correta,
pura, já que, neste carinhoso romance a 75, não entram quengas nem merengas.
Agora, você me pergunta:
qual o objetivo central deste livro? E, a exemplo de todas as mulheres,
respondo com outra indagação: - O que pode fazer um quarentão senão
auto-afirmar-se e falar com seus próprios botões... de baixo? É, também,
uma homenagem aos companheiros que, para orgulho da nossa geração,
amaram tantas ou muito mais mulheres do que eu, mas, via de regra
, não tiveram um canal (no teatro, por exemplo) para derramar suas lágrimas
de mel e publicitá-las desta ou de outra forma.
Capítulo 1
Aveia Quaker fazia a diferença
D. Marli -
A primeira namorada que eu tive foi minha professora. Lembro como se
fosse hoje. Era linda. Cabelos entre pretos e castanhos, olhos graúdos
e claros, sempre pesquisando tudo ao redor.
Eu tinha uma afeição
toda especial por dona Marli (era assim que a chamávamos, carinhosamente).
E acho que ela tinha um certo amor por mim, também. Ou pelo menos eu
imaginava que sim. Quando briguei com o Olavinho, espalhando seus objetos
pela Rua Hermano de Souza, na outrora bucólica e delicada Almenara,
dona Marli foi bastante condescendente comigo. Colocou Olavinho de castigo,
durante toda a tarde, ajoelhado em cima de um monte de caroços de milho,
e me levou para casa. Foi a primeira vez que tomei contato com a parcialidade.
Eu gostava tanto de
Capítulo 1 que nem me importei quando ela, fazendo beicinho, não permitiu
que eu fosse à casinha me desfazer das comilanças do Dia da Criança.
Terminada a aula, eu, no maior sufoco, saí do Grupo Escolar Cond’Afonso
Celso desesperado, sem ter nem terminado de balbuciar o Pai Nosso, e
fui cagando pela cidade afora. Rodopiei a periferia inteira, dando uma
volta enorme até chegar à Rua Belo Horizonte.
Imagine a vergonha
de um menino de 8 anos chegando sujo e fedorento bem em frente à casa
do dr. Hélio Guimarães, o mesmo que, dias antes, me livrara de
uma hérnia precoce, por recomendação do seu desafeto Colimério.
Voltando a Capítulo
1, dona Marli levava Aveia Quaker para mim quase toda semana. Claro
que todos os catarrentos lá de casa provavam do mingau, mas, pra todo
efeito, era para mim que se destinava. Foi aí que aprendi a conviver
com a mordomia.
Morreu aos 43 anos.
De câncer no seio..
Fiquei sabendo em
Montes Claros, pois já não habitava o encantado Vale do Jequinhonha.
Chorei profundamente a perda do primeiro beijo, do primeiro aperto de
mãos olhos nos olhos, da primeira tesão.
Capítulo 2 e Capítulo 3
As primeiras (do substantiva primas)
Mira e Leninha- Antes, muito antes da morte de dona Marli, incursionei-me pelas margens
do Jequitinhonha com um desempenho considerado impressionante
até por mim mesmo. Com essa cara sem-vergonha que sempre me acompanhou,
achava sempre um motivo para levar as priminhas para o mato. Cada pé
de mamona era uma cama a céu aberto. Só que, na nossa inocência, não
havia sexo na cabeça, mas apenas na pele.
Aquele rela-rela se
repetia diariamente, enquanto dona Laura lavava roupas naquela imensidão
de lajedo que começava perto da igreja
e só terminava em Salto da
Divisa. Que delícia
de aventura aquela de ficar com medo de ser surpreendido e levar uma
surra que deixava as palmas das mãos ardendo o dia inteiro! Quando não
era uma palmatória, a sova era na base do fedegoso.
Um dia, Leninha estava
tão fogosa naquele vai-e-vem que acabamos caindo de cima de uma pilha
de sacos de arroz, arrebentando a porta da despensa de tio Sabino. Tia
Vera, dona Laura e tia Senhorinha estavam, naquele momento, preparando
uma montanha de biscoitos de São João e quase morreram de susto.
Foi um corre-corre
tremendo, aí incluídos os primos Zizi, Didi e Wílton, o que deixou a
manguinha de Maria Sapateira em polvorosa. Todo mundo querendo saber
por que a terra estava tremendo. E nós tremendo mais ainda. Seria o
terremoto do prazer bandido? Outra surra inesquecível, desta vez com
o corrião descendo solto nos corpos pelados. Sinceramente, até hoje
não sei aonde foi parar meu calcão, mas jamais esqueci o doce prazer
que era amar duas primas-irmãs simultaneamente.
Capítulo 4
O cachorrinho da filha de madrinha
Jeruska -
Pode até parecer esquisito, hoje em dia, em meio à videomania, à telemania
e à informática, um garoto de 8/9 anos preocupar-se com outras
internets que não a via satélite. Pois todo dia, assim que saía da aula,
lá ia eu direto para a casa de minha madrinha. E, ali, me internautava
a tarde inteira, só chegando em casa no começo da noite.
Minha madrinha adorava
e se gabava da amizade da filha com o afilhado. Era delicioso ser escravo
de uma galega de 18 anos, seguindo à risca todos os seus mandamentos.
Inclusive o de me deitar entre suas pernas e brincar de cachorrinho.
Evidentemente que eu não entendia seus meneios nem sequer imaginava
que um dia ficaria sabendo o significado de orgasmo, ponto G, essas
qualidades eróticas, mas calava bem dentro de mim aquela ânsia com que
ela se estrebuchava e a sensação de que, de alguma forma, estava fazendo
uma adulta sorrir a tarde inteira e pedir bis. E me sentindo muito mais
feliz com as bolachas que ela colocava na minha boca.
Foi ali, instintivamente,
que descobri a grande importância que representa a pituitina para o
corpo humano, o que assegura à língua a extraordinária singularidade
de jamais adoecer-se, por mais profundas que sejam suas incursões. Não
é à toa que a jibóia tritura até um boi usando a força dessa glândula
que jamais vai permitir que você ouça, algum dia, alguém dizer: “Reginauro
está com câncer na língua”.
Capítulo 5
Tudo começou com um chiclete
Shiliene -
Ela chegava de mansinho, aquela carinha de 14 anos pedindo um cliclete
ou um copo d’água ao menino de 13 servindo do lado de cá do balcão do
Café Galo. Na época era Rua Simeão Ribeiro, poeirenta e acanhada, e
não o Quarteirão do Povo que, na década de 70, se transformaria num
dos cartões postais de Montes Claros.
Capítulo 5 era das
meninas mais paqueradas (tinha que usar este vocábulo) da cidade de
baixo. Não sem razão. Cabeça boa, corpo durinho, comunicativa, ladina,
dengosa, gostosa. Extremamente gostosinha. Foi isso que senti quando
toquei sua mão ao entregar-lhe o Ping-Pong. Naquele gesto singelo exprimiu-se
todo o amor que um homem pode sentir por uma mulher. Mesmo não sendo
homem adulto ainda e ela, muito menos, mulher da vida (dava uma bronca
falar isso naquele tempo. Era um verdadeiro rabo-de-foguete).
Vai daí que Shiliene
parece que entendeu a mensagem transmitida pelo caipira de Almenara
e passou a reduzir o comprimento das saias e o decote das blusas. Isto
me deixava imensamente extasiado, como se fosse o maior Don Juhan do
pedaço. Só anos depois ficaria sabendo que toda aquela mudança
de vestuário e, claro, de comportamento, de Shiliene fora apenas resultado
das mutações provocadas no mundo pela extraordinária influência dos
Beatles, seqüenciados pelos Rolling Stones.
Até então, as roupas
eram de cores únicas, sem listras nem estampas, as saias compridas,
mulher não fumava na rua nem usava batom vermelho, os homens ostentavam
orgulhosos suas galochas e o chique era assistir aos seriados de Zorro
e Tarzan no Cine Ipiranga.
Tudo bem que seja
breguice, coisa de gente atrasada, flash back, mas jamais saíram
das minhas retinas fatigadas aquela imagem super-cem da calcinha branca-branquinha
de Capítulo 5, bem de frente para mim, enquanto se balançava na cadeira
de seu pai, no alpendre do Bairro São José.
Meu Deus, era muito
para mim! Eu não merecia ser tão feliz como naquele primeiro lance!
Que, aliás, está agora, aqui, bem na minha frente (acabei de desenhar
a calcinha de Shiliene no Paint deste 586 pornográfico).
Capítulo 6
Cada aluguel, um doce de mel
Nini - Nunca
mais a vi. Uma gracinha de criatura, como todas as 74 mulheres com quem
convivi. Só que, neste caso, o amor era platônico. Mais tônico do que
plato, mas bem na filosofia de Platão.
Um dia, Capítulo 6
me surpreendeu lendo uma revistinha de adultos. Estirado na cama, nem
percebi quando Nini chegou de mansinho e foi seassentando ao meu lado.
Respondi ao cumprimento e continuei lendo aquelas piadinhas
de Bocage e os ensinamentos de Kama Sutra, próprios de almanaques biotônicos
e da coleção Rider Digest.
Foi aí que Capítulo
6 passou, leve e magicamente, a mão alva de névoa no sentido cima-abaixo
de minhas costas e quase me mata de calafrio. Fizemos delícia até o
início do Repórter Esso, que este eu não perdia de jeito algum. E, afinal,
Capítulo 6 não estava acostumada a tanta sofreguidão.
A paixão durou muito
tempo, uns seis meses, que era a média de mudança de casa de aluguel
da família Silva. Está aí um dos motivos do travamento de conhecimento
com tantas mulheres. Cada casa, um caso. Cada aluguel, um doce de mel.
Capítulo 7
Sueli Rosa Milk, a rainha de Bocaiúva
Sueli - Esta
tem que sair por inteiro. É que são tantas as suelis que eu conheci
ao longo dessas quatro décadas que pode ocorrer uma certa confusão.
A começar da querida lá da Vila Guilhermina, da magrela do jornal e
tantas outras que povoam meu mundo. É difícil esconder as suelis da
minha vida. Com ou sem leite.
Mas esta é especial
e, por isso, vai com o nome todo, ao contrário das próximas que virão
e que terão, nesta obra, apenas o prenome publicado. Refiro-me à estonteante
morena dos lábios de mel e dos olhos de jabuticaba Sueli Rosa Milk,
talvez a mulher mais bonita que beijou o chão de Bocaiúva. A rainha
da cidade, eleita pela unanimidade dos votos dos galãs Ildeu, Joãozinho
e Pedro Baiano.
Ninguém sabe - nem
a Bíblia explica - o que fez Jesus Cristo dos 13 aos 33 anos. Trata-se
de uma pendenga milenar que nem os teólogos se arriscam a elucidar.
Confesso, cá por mim, que esta foi uma fase altamente prolífera na minha
vida, no que se refere às mulheres. E Sueli Rosa Milk (até o nome me
dá tesão!) foi uma das delícias entre as 74 mulheres que eu amei. Como
era doce! Como era bela! Acho que, depois de me apaixonar por
Glorinha, Aíde/Shiliene, Udilma, Neguinha, Nini, dona Marli, foi a pessoa
que me chamou à realidade, fazendo com que eu entendesse melhor minha
sexualidade.
A cidade era (e continua
sendo) a moreníssina Bocaiúva. Uma imensidão de poeira, daquelas bem
vermelhas, com cheiro de formiga, arrebentava minhas narinas nos 48
quilômetros de Montes Claros até lá. O que não era nenhum empecilho
para quem rastejava diariamente, sob o comando do sargento Marcos, no
Tiro de Guerra 04/087, como glorioso (o que queria dizer aquilo?) cabo
do Exército brasileiro.
Vai daí que, raras
vezes, nas folgas da instrução, lá íamos nós em direção a Bocaiúva,
levando as últimas novidades das bancas de revistas, geralmente resumidas
na revista Sétimo Céu, com suas novelinhas adocicadas.
João e Antônio Tolentino.
Paulo Cabaço. Selassiê (que hoje está lá no outro patamar da vida).
Eustáquio do Bemge. Quando chegávamos em Bocaiúva, era uma festa. Ouvíamos
pelas ruas da Avenida Cícero Dumont e adjacências: “Venham, venham,
os “pães” de Montes Claros chegaram!”
Era aquela festa!
Claro que nós esnobávamos um pouco. Eu, por exemplo, sempre exibia a
última novidade do fim da década 60, como um cinturão a Erasmo Carlos
que fazia os meninos torcerem os narizes e nos ameaçarem, veladamente,
de dar umas porradas... Ou uma camisa volta-ao-mundo que não podia nem
sentir o calor de um cigarro (derretia-se toda...) Ou um penteado a
Príncipe Danilo que os barbeiros da cidade não conheciam e ficavam olhando
para aprender.
Depois de escorregarmos
a poeira na pensão da Avenida Montes Claros e de distribuirmos as novidades
da semana, inclusive as revistas femininas, dávamos uma passada pelo
restaurante Cancelão, de Deodato Biondi, na Praça Benedito Valadares,
ao lado do ultra-racista Clube Social de Bocaiúva, e partíamos direto
para a Sede Operária, que era nosso reduto favorito, ali bem perto da
atual Câmara Municipal.
O merchandising feito durante a tarde era garantia de moça certa pra dançar quando a patota
entrava na famosa (hoje extinta) Sede. As conhecidíssimas filhas
do cabo, Mércia e Cacilda, estavam sempre à disposição da
turma de Montes Claros, que nunca ganhava tábua (ou taba ou
tijolo, como se dizia). Bastava a banda entoar Os Milionários,
de Os Incríveis, e lá íamos nós abrir a hora-dançante, num rodízio
que só terminava depois das duas. Mas eu me amarrava, mesmo, era em
Capítulo 7. Uma imensidão de mulher que me enchia de prazeres e deixava
os colegas se matando de inveja.
Até hoje não entendi
por que uma mulher tão linda, inteligente e formosa se virou pro lado
desse filho de Almenara. Assim como não entendi outros casos que viriam
a ocorrer na seqüência de minha espantosa relação com o sexo feminino.
Acho que é puro charme. Nada mais. O fato é que nos amávamos como gente
grande, misturávamos nossos cuspes e nos aprofundávamos na arte da alegria,
do amor, da paixão. Era comum amanhecermos (os rapazes de Montes Claros
nem sempre sobreviviam a mais de dois cubas-livres) estirados no
hall de entrada da Prefeitura, exatamente quando as beatas se preparavam
para assistir à missa da histórica Igreja de Senhor do Bonfim.
Como todas as paixões,
esta terminou exatamente como começou: assim, sei lá, como se
fôssemos portadores da Síndrome de Rett,
a nova doença descoberta pela
Medicina e que se
encontra entre a Síndrome de Dow e o Autismo. Batendo uma mão contra
a outra e olhando para o infinito. Eu parti para outras bandas e Sueli
também. Ficam aqui a homenagem e o beijo fraterno de uma pessoa que
soube amar aquela montanha de mulher. Um verdadeiro pão-de-açúcar.
Capítulo 8
Uma Rosa que desabrocha
em Tocantins
Rosa - Como
Sueli Rosa Milk, que nunca mais voltou, há o caso de Rosa, esta hoje
em Tocantins, onde continua desabrochando. A história de Rosa começou
patética, ganhou um período de intensa felicidade e terminou trágica,
se não fosse cômica. Naquele tempo, na nossa meninice, eu e Tadeu sequer
sabíamos o que era o gosto de um beijo além dos lábios de uma linda
mulher como aquela mulatinha com cara de Iracema. Que se divertia com
nossos versos copiosos: “E à noite na taba, se alguém duvidava do que
ele contava, dizia contente: meninos, eu vi”.
(Abro parêntese
para uma vexatória abordagem feita a uma menina da Escola Normal, após
uma sabatina aplicada pelos professores Dão, Pedro, Cibele, Wandaik,
Luiz, Conceição, Terezinha, Ezequiel e Clóvis. Ia descendo a rampa do
colégio Professor Plínio Ribeiro quando destampei, como
sempre, com a bela Consuelo, uma menina supimpa da 1a. C
(eu era da L). Com uma coragem que nem eu acreditava, olhei para dentro
de seus olhos e lasquei: “Linda!”. A resposta veio de bate-pronto: “Feio!”
Quase despenquei com objetos e tudo lá na portaria comandada por Tião
e Paraíba. Que decepção!
Nunca mais esqueci
aquele fora, o que certamente aconteceu também com a galeguinha. Tanto
que, um século depois, ela - já separada e afilharada - caiu em prantos
quando relembrou o episódio, numa festa no Max Min Clube. E dizia, toda
chorosa, para si mesma, como tentando consolar o inconsolável:
“Como eu era bobinha!”. E eu: “Importa com isso, não, Consuelo. Feiúra
não tem conserto, não. Continua do mesmo jeito. Beleza é que piora...”
Fecho o parêntese para voltar a Capítulo 8).
Assustado, saí da
Escola Normal bufando que nem um elefante e fui apagar a mágoa na deliciosa
e sempre repleta boate do D.A. da Fafil, o tesouro da juventude.
Era ali que tínhamos a oportunidade de exercitar o ápice do nosso erotismo,
que era o de dançar juntinhos, pernas coladas com pernas, mas sem o
direito de encostar nos seios da parceira. Quando isso acontecia, ai
meu Deus!, lá vinha a mão repressora sobre o peito da gente.
O medo de agredir
a honra alheia era tamanho que tínhamos de morder freqüentemente a língua
enquanto dançávamos e, nos intervalos, ir ao banheiro nos aliviar da
tesão. Não foram poucas as vezes em que, simplesmente ao sentir o contato
com os biquinhos de uma menina, eu me sentia molhado nas partes de baixo,
também. E ficava morrendo de vergonha da minha própria ereção. Uma covardia,
olhando-se o mundo de hoje! Acho que é por isso que inventaram o
bugulu, a discoteque, o axé music, onde os casais
nunca se encostam nem se enfrentam. Estão sempre separados. Para desespero
dos que tentaram implantar a lambada no Brasil.
Nesse dia, lá no D.A.,
encontrei o Tadeu e, entre um gole de guaraná e uma música de Erasmo
Carlos à beira do caminho, acabamos com a inevitável e sempre desejada
missão de “levar as garotas em casa” após a hora-dançante coreografada
pela primeira luz-negra da região, aquela que deixava as saias e os
vestidos brancos transparentes e nos permitia, em êxtase, ver a sombra
das intimidades das réplicas de Rita Lee, Rosemary, Martinha e Wanderléia.
Que delícia!
Subíamos a Rua Bocaiúva
em animado bate-papo, chupando picolés, quando, de repente, Rosa reclamou
que estava com vontade de fazer xixi. Ou melhor, “de urinar”, que desde
mocinha ela não tinha papas na língua. Tadeu, na sua santa formação
seminarista, onde aprendera a encarar a mulher como “coisa do capeta”,
brincou: “Ah, urina aí mesmo...”. Hum, fica aí! Estávamos
em frente à casa do motorista de táxi Mário, que tinha um
imenso lote vago na frente. Mais que depressa, Rosa agachou-se, tirou
a calcinha e tchóóóóóóóóóó’...
Nunca mais Tadeu quis
saber daquela magrela escandalosa e liberal, que encantava a rapaziada
e matava de inveja a mulherada espinhenta e conservadora de Montes Claros.
Desde então, até hoje não sei por quê, Rosa se embrenhou pela floresta
amazônica, virou indigenista e só muitos anos depois reapareceu, de
cabelos cortados bem rente à nuca, como se fora realmente uma aborígine.
Foi a primeira índia em quem penetrei na minha vida. A outra seria Capítulo
74.
Ríamos, até, ao relembrar
o episódio dos anos 70, e passamos a ter uma convivência que superava,
em muito, o modismo da amizade colorida. O amadurecimento levara ao
suprimento dos tabus do já então empoeirado e aranhento Automóvel Clube
e se concentrava na baixada do Relicárioì, inclusive Rosa, uma das mulheres
mais inteligentes entre as 74 que eu amei. Em meio à patota impressionada
com seu discurso macho-feminista, entre os quais se encontravam Virgílio,
Geraldino, Tico, Júlio, Arlete, Nice e Raquel, mirou o dedo no meu nariz
e esbravejou: “Pô, você tirou toda minha energia e, agora, não quer
tomar conta de mim. Ou aceita o que estou propondo ou vou embora para
Itacarambi, cuidar dos xacriabás. Pô, cara, você me usa como se eu fosse
uma laranja: “Chupa, chupa, e depois joga a bucha fora...”
No dia seguinte, depois
de uma noitada no Skalla, deu os últimos gemidos e partiu para Tocantins,
seguindo a trilha da Funai. Como diz o sambista: ai que saudade que
dá!
Capítulo 9
Deitando e rolando nas escadarias de Ouro Preto
Das Graças
- Cego de um olho, sem os dedos dos pés, conseqüência da hanseníase
e da porfiria que contraíra nas águas ferruginosas da região; com os
cinzéis amarrados ao antebraço, no longínquo século XVIII, jamais Antônio
Francisco Lisboa, o Aleijadinho, poderia imaginar que estava planejamento
tão belas igrejas para, um dia, lá pelo século XX, serem usadas como
cenários de duas das 74 paixões da minha vida. Pois foi justamente diante
das obras-primas do gênio da humanidade,
seja em pedra-sabão ou madeira que entalhava
e pintava com inspiração divina que se desenrolaram momentos estonteantes
que só Ouro Preto poderia proporcionar, nas três unidades clássicas
de tempo, ação e lugar.
Capítulo 9 ou Das
Graças, uma sertaneja com jeito de riquinha (e era), um sorriso angelical
e um corpo escultural para seus 19 anos, expandia charme e encantamento.
Já então, como seu voraz leitor, eu acreditava piamente na máxima de
Nélson Rodrigues, segundo a qual “o beijo é a posse”. Pensando nisso
é que procurava de todas as formas obter um beijo
que fosse de Capítulo 9. “Se o
beijo é a posse, beijou tá lascada...”, comentava com os
outros, sem saber que levaria um demorado baile de Das Graças.
Arma eficientíssima,
o telefone mantinha Capítulo 9 de ouvidos colados à minha boca. A aproximadamente
700 metros de distância. Ficávamos horas trocando confidências que,
quase sempre, adentravam o terreno do erotismo puritano, dando ao outro
a delícia da descrição da calcinha e da camisola, com direito a sussurros
e telebolinações
E só. Se quisesse
continuar a fantasia, que me debruçasse sobre os versos “sacânicos”
de Clarice Lispector ou os livrinhos de bolso de Keith Olivier Durban
e suas mulheres encantadoras.
Foram anos inteiros
de tentativas e negativas. O certo é que, com o tempo, foi-se criando
um clima de camaradagem/amizade/intimidade ma non tropo, que
já eram freqüentes às visitas à sala e ao portão de Capítulo Nove e
menos indignadas suas recusas. No fundo, eu achava um desaforo Das Graças
não fazer exatamente o que falava e insinuava com aquelas gargalhadinhas
sensuais. Sentia-me um bobo persistente.
Na véspera do meu
primeiro casamento, fui à casa de Capítulo 9 e enfiei-lhe uma doce chantagem:
“E aí, vou me casar amanhã. Isto lhe diz alguma coisa?” Sim, sim, ela
respondeu, sem desgrudar aqueles grandes e pretos olhos do chão: “Significa
que você vai se casar amanhã e vai continuar me amando a vida inteira...”
Eta menina malvada!
Como dizia a Neila: “Ela tem um sorriso adorável, mas seus dentes
cortam como navalha...” No que eu rebatia recorrendo a Nietszche: “Somente
um coração em caos pode dar à luz uma estrela cintilante”.
O envolvimento afetivo
prosseguiu anos a fio, sempre com um fio de esperança de minha parte.
Houve uma breve trégua quando Das Graças transferiu-se, com mala e cuia,
para Ouro Preto, 600 quilômetros adiante. Uma distância razoável para
quem a visitaria onze vezes em apenas um ano.
O pacote turístico
acabaria dando certo. Aquela energia, aquela beleza reconhecida como
patrimônio da humanidade, a Casa de Contos, o barroco presente em todas
as ladeiras... Nem mesmo o pós-moderno Grande Hotel projetado por Niemayer
conseguiu macular a magnitude daquela enorme casinha de bonecas que
é a imorredoura Vila Rica.
Do Museu da Inconfidência,
na Praça Tiradentes, fiquei uma tarde inteira acompanhando - (entre
um janelão e outro; entre um oráculo do século XVI e as carruagens do
Império; entre uma privada de pedras ao lado de um fogão tipo lareira
e as lápides dos inconfidentes) - os movimentos de Capítulo 9.
Dali de dentro do
museu eu a seguia, com os olhos, pelo Teatro Municipal, a República
de Minas e a Ufop, Universidade Federal de Ouro Preto. Até que, no começo
da noite, adentrei a república e dei de cara com umas trinta alunas,
colegas de sala e de quarto de Capítulo 9.
Para vencer a timidez
e dar logo o cartão de visitas, retomei meus ensinamentos de Quiromancia,
aprendidos com Tia Dodó, e li as mãos de todas elas. Sem repetir uma
sequer. Lógico que o espanto foi geral, como já acontecera com igual
número de alunos de um curso de Redação e Criatividade que ministrara
no Senac.
O trabalho de relações
públicos funcionou eficientemente. É aquela história do “não importa
a cor do gato, desde que seja eficaz para caçar o rato...” E à noite,
de forma surpreendente, nós nos amávamos rolando sobre as escadarias
da Igreja do Carmo, bem em frente à república e debaixo das estatuetas
de ouro, de vitrôs multicoloridos e de castiçais ancestrais. Mais ousado
do que nós, só um maconheirinho que puxava seu unzinho debaixo
do nariz de um PM, que ia e vinha entre namorados
tarados do interior
de Minas e doidões
aloprados do mundo inteiro. Noite como aquela haveria só mais algumas.
Que valem por um milhão.
Capítulo 10
Uma libanesa que viaja dentro de mil
Suraya - De
forma infinitamente mais veloz, mas com igual intensidade, só que nas
escadarias das igrejas Pilar, São Francisco e de Nossa Senhora da Conceição,
outros encontros aconteceram, só que com Capítulo 10, uma libanesa que
se apresentara como Suraya após a exibição de “Prensa” (melhor texto
e melhor público) no V Festival de Teatro Amador de Minas Geras, o Festimas.
Aroldo, Eugênio, Vladimir,
Henrique, Rai, Gílson e o presidente da Fetemig, Bethoven, ficaram sem
entender por que uma gringa chique como aquela colocou o elenco e a
direção do festival para escanteio e foi passar as friorentas (média
de 7 graus) noites de Ouro Preto agarradinho ao autor da peça.
Entre três cobertores
e litros de pinga-com-mel e Vodka com suco de laranja do Casa Grande
e da Cantina do Chicão, e os pesticos de Vandico e Tatu, espantamos
todos os fantasmas dos porões dos escravos. Afinal, éramos os próprios
escravos do amor e do sexo.
Seis meses depois, Vladimir foi abordado no aeroporto de Congonhas por
uma mulher bonita, alta, elegantemente trajada, com chapéu e tudo: “Cadê
o autor da peça?”, perguntou de supetão. Após refazer-se do susto e
dar um milhão de risadas, Vlad teve a frieza e o bom senso de tomar-lhe
o endereço, antes que seguisse para o Peru, para visitar uma mina de
cobre de seu pai.
Certamente, Capítulo 10 estará no lançamento deste livro. Pelo menos
é o que acaba de dizer via internet.
Capítulo
11
Por que nunca mais usei o Motel de
São Matos
Das Dores – Sua beleza não tinha nada de impactante. Era uma beleza
singela, meiga, doce como um favo de mel. Mas sem aquela pieguice do
Gonçalves Dias. Sim, porque Capítulo 11 estava mais para a danadinha
machadiana Capitu do que para a fresquinha Ceci. Era preciso que, aos
poucos, você fosse se acostumando com a intensa lindeza de Das Dores.
E foi exatamente o que aconteceu comigo.
Trabalhávamos juntos. Ela no comando da central PABX, eu na sala de
relações públicas. Como a porta dava (sempre) para o corredor em frente
à sua, comunicávamos a distância. Seja gritando ou, em sussurros, usando
a extensão telefônica. Em um ou noutro caso, as cantadas eram inevitáveis.
Primeiro, partindo de cá; depois, do lado de lá. O assédio foi se invertendo
lentamente, que era assim que deviam correr (ou parar) tudo que dissesse
respeito a Das Dores.
Até que, num calorento e delicioso fim de tarde, Capítulo 11 sugeriu
que subíssemos até o terraço, para tomarmos um chopp no restaurante
panorâmico. Com sofreguidão, aceitei o convite. Pura sacanagem, para
deixar bem clara a mudança de posições. Afinal, eu passara de assediante
a assediado. Era sua vez de penar um pouquinho que fosse, antes do desfecho
fatal.
Um começo de noite pra lá de agradável. Muitas palavras foram trocadas,
muitas confissões entrecortadas. Cada um sabia do comprometimento civil
do outro. Os riscos eram óbvios, mas que mais valeria a pena? Então,
para que delongas? Pulamos da terceira caipiríssima e da segunda cerveja
para o apartamento do terceiro.
O primeiro beijo aconteceu já dentro do ap, com um inesquecível detalhe:
as línguas se retorciam na mesma proporção em que Das Dores, por trás
de minhas costas, subia e descia deliciosamente a luz em resistência.
Uma sôfrega e ansiosa agonia que ia e vinha na medida em que o ambiente
ficava mais claro, mais sombrio, escuro por inteiro, novamente claro...
e minhas mãos puxando sua bundinha redonda, seu gélido narizinho comprimindo
meu quente e bufante nariz em que o boi pisou... Cenas dignas de um
Felini. Porque Hiticock viria depois. Duas saídas depois.
Numa escaldante noite de verão, quase em frente ao familiar motel Sand’s,
para onde nos dirigíamos, surpreendi Capítulo 11 ao propor-lhe uma esticada
até a serra de Bocaiúva, em vez de repetir aquela mesmice burguesa do
ar condicionado, das miniaturas do frigobar, do espelho redondo lá no
teto, da hidromassagem borbulhante, das fitas do canal 2, da água duvidosa
da piscina recém-usada e da garçonete enfiando a cabeça com a comanda
por aquela janelinha da suíte presidencial.
Das Dores estava tão maluca com o adultério seqüenciado que aceitou
a proposta na hora. Embiquei o Passat azul rumo ao Pentáurea Clube,
mas não há boquete que mantenha a cabeça de um motorista no seu devido
lugar. Na primeira curva, virei à direita, ganhando o anel rodoviário
em construção. Um poeirão dos capetas, como reclamava Tadeu no Boca
no Trombone, da ZYD 7.
O carro andou uns cem metros e empacou que nem burro. Desvirei e virei
a chave. Nhem... nhem.. nhem... Pensei: “Deve ser a bateria”. E puxei
levemente Capítulo 11 pelos cabelos, levantando-a dos joelhos e dando-lhe
no um beijo na nuca.
Depois de fuçar o miolo do carro, constatei que não era bateria nem
ignição nem a parte elétrica nem carburador entupido nem falha do agente
condutor nem a rebimboca da parafuseta. “Filho da puta!”, gritei ao
me lembrar que, durante todo o dia, deixara o Passat na oficina, para
troca do platô. E que a bóia da gasolina, como em toda carroça, não
estava funcionando. E que o mecânico vigarista da General Carneiro naturalmente
esvaziara o tanque.
Pusemo-nos a caminho da BR 135, naquele ermo sem termo. Uma penosa jornada,
agourada pelo coaxar dos sapos e os piados das mortalhas. Por milagre,
eis que pisca uma luz no fim do túnel...
Milagre? Quando o carro aproximou-se, Das Dores tremeu por dentro e
por fora: “É meu primo!” Na medida em que procurava esconder-se por
trás de minha magreza, o farol a caçava como se fosse um tigre. Os olhos
do primo se alegraram ao reconhecer o companheiro de Escola Normal.
Era o Cícero. Mantive frieza suficiente para pedir-lhe socorro e enfiar
Capítulo 11 por baixo de uma moita, onde me aguardaria até o fim da
operação suga-suga, arrota cachaça-engole gasolina.
No que Cícero deu a partida, mais curioso do que desconfiado, olhei
o relógio: quase 11 da noite, justamente o horário em que o maridão
deixava o plantão. Adeus, Globo Rural! Pelo menos por hoje. Peguei Das
Dores e arranquei furioso. Mais uns trinta metros e, entre montes de
terra e cascalho, o carro despencou num desvio, indo parar lá dentro
do buraco. Solidária, Capítulo 11 ajudou-me, com pedras e pedaços de
pau, a retirar o Passat do barranco.
Por precaução, parei dois quarteirões antes de sua casa. Quando avancei,
finalmente aliviado, lá vem o plantonista em sua moto envenenada. Fiz
sinal para que parasse e fiquei, aproximadamente, 43 minutos inventando
histórias, enchendo lingüiça, enquanto – mentalmente – calculava o tempo
em que Das Dores se desfazia das roupas empoeiradas, tomava banho e
se agasalhava.
No dia seguinte, entre risos, disse que quando o amigão chegou já estava
no terceiro ronco de mentirinha. Na poltrona da sala, é claro. Naquela
noite, ficáramos os três na pior. Tudo por causa daquele ladrão de gasolina.
Devo a Capítulo 11 a decisão de nunca mais usar o matel. Mas isso só
depois de uma perseguição surrealista nas proximidades do Parque Municipal,
com uma camioneta correndo atrás do fusquinha (nós dois pelados dentro
do besourinho, que ridículo!) e da ameaça de morte na Esplanada, só
não consumada porque, malandramente, exibi ao velho agarrado a uma espingarda
polveira minha sebenta cédula de identidade como se fosse “da autoridade
com quem o senhor está falando”. O homem tremeu tanto que “leu” a identidade
de cabeça para baixo e pediu mil e uma desculpas ao doutor.
Capítulo 12
A boca mais bonita do mundo
Kátia - Justamente no dia em que acabara de ler “Admirável Mundo Novo”
e me encabulado com a constatação da realidade presente na ficção secular
de Aldous Huxlei, tomei um impacto ao adentrar o Teatro Nacional de
Curitiba, a caminho para Foz do Iguaçu. A magnitude do teatro paranaense
é, por si só, motivo de espanto. A peça que era encenada, então, assustava
muito mais. Não é todo dia que você é colocado de frente para a encenação
de um texto do magistral Oscar Wilde e seus retratos de Dorian Gray.
Narcisismo à parte, vale a pena relembrar uma fala da personagem Salomé
e a dureza de sua paixão renegada. Um desabafo mais ou menos assim:
“Tu não quiseste que eu beijasse a tua boca, Iokanaan. Pois vou beijá-la
agora. Hei de mordê-la como se morde um fruto maduro. Não me quiseste,
Iokanaan, me desprezaste. Me trataste como a uma prostituta.
A mim, Salomé, filha de Herodias, princesa da Judéia. Pois bem, Iokanaan,
estou viva!
E tu morto, e tua cabeça me pertence!...
Posso fazer dela o que quiser! Posso jogá-la aos cães ou às aves de
rapina.
O que os cães deixarem, os abutres devorarão”.
Ainda impressionado com a conquista de Capítulo 11 em Ouro Preto, Gera
Boca não entendeu quando lhe contei essa passagem de Salomé, relatando
as peripécias do Encontro Nacional do Teatro Amador, realizado no Teatro
Galpão, em São Paulo. De volta de Curitiba, eu acabara de testemunhar,
ali, na Rua dos Ingleses, bem próximo ao mundo dos artistas globais,
que era a Praça Orvieto e seus barzinhos 24 horas, uma das cenas mais
chocantes da minha vida.
Lá pelas 3 da tarde, entre risos e cochichos, ficara conhecendo Kátia,
a representante do Rio de Janeiro no encontro. Tudo porque relatara
ao microfone, instantes antes, que Montes Claros tinha 12 grupos teatrais
em atividade, inclusive o nosso Tapuia de saudosa memória. No que contava
para Kátia detalhes do movimento artístico-cultural de uma cidade do
interior de Minas com pouco mais de 150 mil habitantes, duas mulheres
se atracaram bem à nossa frente, num beijo longo e ardoroso. Kátia morreu
de rir da minha sem-graceza, dando a entender que aquilo era comum entre
os civilizados, ou pelo menos entre os cariocas e paulistas.
Foi a primeira vez que vi dois sapatões se beijando. O que, hoje, acontece
toda hora, em qualquer lugar, diante de todo mundo. Só que, naquela
década, eu era bobo. E, como dizia meu pai, “todo tolo tem um tolo que
o admira”. Ou tola.
No entusiasmo da conversa, acabei retratando para a carioquinha linda
e maravilhosa, na sua doce inocência, que Montes Claros era a melhor
cidade do planeta. E
a mais culta. O que, aliás, me levaria, no ano seguinte, a criar um
eslogan que hoje se encontra na home page da internet: “Montes Claros
- Cidade da Arte e da Cultura”, bastando você acionar o endereço de
Wanderlino. Quer dizer, já então eu descobrira que não era tão tolo
como imaginava Gera Boca.
Encerrado o congresso, passei a ligar diariamente para Kátia. Não durou
muito e Capítulo 12 se deslocou de Jacarepaguá, pertinho do autódromo
Ayrton Senna, ali na Barra, para o Sertão de Minas.
11 horas de viagem!
Peguei emprestado o imponente Cadilac de Levino, disposto a gastar todo
o dinheiro do mundo no primeiro posto de gasolina, e fui recepcioná-la
na rodoviária. A banheira comportava uns dez amigos, sem tirar nem pôr.
Tico e Gílson, chefes da delegação, levaram até violão. Rai, Eduardo
e Gera se encarregaram dos fogos. O dono do carro tratou de plantar
na coluna do finado Lazinho a informação de que uma sobrinha de Lima
Duarte chegara à cidade para ministrar um curso para os integrantes
do Grupo Tapuia, o que realmente aconteceu. O local dos ensaios era
o Sesc e uma das participantes era Cláudia, meses depois barbaramente
assassinada a tiros e marteladas pela polícia, juntamente com o namorado
Fábio, notícia estampada em todo o país.
Foi uma semana e quase meia de amor. Capítulo 12 me matou. Contei tanto
esse caso para meus igualmente boquiabertos amigos, que nem vale a pena
repetir. O certo é que nos amamos perdidamente durante muito tempo.
Isto incluiu sessões variadas de sexo e amor em motéis de Minas e do
Rio e de um hotel amarelinho de Leopoldina que não sai da minha memória.
Kátia, depois de se casar, ter um filho e se separar, mudou-se para
um apartamento na Praia de Icaraí, em Niterói, onde fui visitá-la a
caminho de Cabo Frio.
Mas o cheiro que, segundo ela, permanece em seu subconsciente, é o do
matinho verde refletido pela lua esplendorosa daquela noite na Vila
Brasília. Quem é o Rio para ter ambiente tão romântico como aquele...
E quem é mulher para ter uma boca tão bonita como a de Kátia. Sinceramente,
só Capítulo 74 conseguiria superá-la.
Capítulo 13
É
muito fácil ser apaixonado por Deus
Lud - Como previra o sociólogo canadense Marsahll Mac Luhan em priscas
eras, o mundo acabou se transformando numa aldeia global. Hoje, via
internet, você viaja de Caetité ao Japão sem sair do lugar. Pode conversar
com Tone Show no Havaí e com Cláudia Cardinalle na Rocinha, ali mesmo
em Montes Claros ou no Rio de Janeiro. É assim que me sinto quando falo
sobre as 74 mulheres que eu amei e, evidentemente, pelas quais fui (e
continuo sendo) amado. Todas estão muito próximas, aqui mesmo à minha
mão.
Nesses momentos, eu me sinto como se fosse uma ilha cercada de belas
mulheres por todos os lados. E contesto o John Donne, para quem “nenhum
homem é uma ilha”. Claro que somos parte de um continente, como está
escrito em Meditation XVII, mas aqui dentro da minha cabecinha estão
todas as mulheres que me fizeram felizes ao longo desta prazerosa jornada.
Cada pontinha de prazer ao meu lado é uma mulher pelada. Uma ilha sem
fantasias.
A Lud, por exemplo, é uma mulher sensacional. Tão sensacional que não
vou conseguir descrevê-la. Essa mulher indescritível é presença diária
na coluna social do Theo, divinizada pelos comentários sempre pertinentes
de Amerquinho, estrela de todas as festas e bordejos. Enfim, uma mulher
Nota 10, como se dizia nos meus 20 e poucos anos.
Para resumir, sem encher o saco da leitora, Lud era transparecia o requinte
da mulher brasileira. Morena de um jambo de deixar água na boca, cabelos
lisos e compridos. Aquele corpo escultural, com os peitinhos empinados
para a frente. Uma bundinha que ninguém ousava chamar de bunda. Olhos
lindos de tão carentes que eram. Um metro e oitenta de capa de revista.
Ah, meu Deus, por favor, me deixe em paz!
Acabo de sair da redação do jornal e me deparo com Lud descendo a Rua
Dr. Santos. Um deslumbre que você nunca viu. Exatamente ela que, dias
atrás, me confessara, ao telefone, que estava apaixonada pelo noivo
e seu maior sonho era subir às escadas da Catedral com um vestido magnificente
e uma jura imorredoura. Só que demonstrara, naquele instante sublime,
que era tão idiota a ponto de acreditar que eu engolia a sua engasopação.
Logo eu, o maior trocador de figurinhas e de revistas antigas do Cine
Ipiranga e dos demais cinemas da região.
No que a abordei - entre olhares gulosos de uma imensidão de homens
que passavam pelo pedaço -, consertei minha pobreza, fixei os olhos
bem dentro de suas ameixas e lasquei o verbo: “Lud, vamos tomar uma
cerveja ali no bar do Toninho?” Não poderia haver insulto maior para
uma menina acostumada a passarelas, vôos internacionais e cursos de
Inglês. Era como se eu dissesse para Xuxa (o que aconteceria tempos
depois): “Qual é a cor da sua calcinha?”
Capítulo 13 topou na hora. Andamos uns cinqüenta metros e executamos
a cena mais impressionante do mês de setembro: uma socialite, magnificamente
comportada, tesão para homem nenhum botar defeito, toda-toda, requinte
de todos os requintes da cidade, bebendo cachaça ao lado de um tabaréu.
Ou melhor, de um plebeu, para ser fiel ao seu palavreado, porque, nessas
horas, eu uso bem o Português. Ela ficou tão extasiada com a experimentação
pequeno-burguesa que repetiu a dose (sem trocadilho, mas com limão)
várias vezes. Sempre falando sobre a gostosura do escondidinho e da
hipocrisia da alta sociedade que lhe cobrava plumas e paetês em vez
de vestidinhos de chita.
Foi um dia inesquecível para mim e para Capítulo 13. Mostrei a Lud que
a vida só tem sentido quando bem vivida, que a matéria não vale nada,
que o ser humano tem que viver do pescoço para cima; que a fortuna de
seus pais seria destruída pelo tempo; que uma pombinha levou um século
para acrescentar um milímetro ao muro de Berlim e os homens gastariam
apenas algumas horas para destruí-lo. Enfim, arrasei os seus conceitos
e puxei a brasa para o lado de cá. Um tanto de besteiras que, ditas
numa mesa do sótão do bar, sob os olhares invejosos de um bando de alcoólatras,
valia mais que o roteiro do Titanic e seus projeto mirabolante.
Com minha aquiescência, Lud casou-se, teve um filho, formou-se em advocacia
e se separou três anos depois. Minha paixão por Capítulo 13 continua
inteira. Tão inteira quanto à das demais, de tão cretino que eu sou.
Viajamos mundos, palmilhamos ilhas, curtimos pássaros-pretos em vôos
razantes sobre as águas do Velho Chico, em Manga e Bom Jesus da Lapa,
enfrentamos discrepâncias vestibulares, sorrimos das turbulências de
mono e bimotores sobre as matas do Pantanal. Enfim, beijamos ardentemente
a arte de viver, entre confidências, abraços e muitos ais que só meus
bichinhos conseguiriam explicar.
O amor é tanto que, até hoje, eu penso que Lud é Deus.
Capítulo 14
A
sensacional indiferença que faz a conquista de uma mulher
A Grandona – Eram mais ou menos duas horas da manhã. Eu, com os olhos
cheios de areia, apalpei ao redor e nada encontrei. Onde estaria Zulmira?
Procurei na cozinha, na copa, no banheiro, debaixo da cama, dentro da
geladeira, em toda a quitinete da Rua da Conquista, ali perto da majestosa
Praça Tancredo Neves.
Nada!
A vontade era de me matar. Por que fizera aquilo com Capítulo 14? Gritei:
Zulmiraaaaaaaaaaaa!!!
Nem o rato, que costumava roer os papéis da penteadeira, respondeu.
E eu, naquela desesperança, sem saber o que fazer, tentando – pelo menos
– encontrar os óculos sob a cama, reconciliar-me comigo mesmo, para
ser bem reflexivo, bem self-service. Eis que, no tropeço da ânsia, encontro
uma folha de caderno com um manuscrito que não era meu. A letra trêmula
tinha um cheirinho de Zulmira e um poema que jamais esqueci.
“Um caminho incerto,/O sorriso forjado,/O olhar deserto,/Um corpo cansado.
Tristeza de ser,/De rir, de querer,/Revolta de mim,/Rezando pro fim.
Um dia, um encontro,/Teu sorriso era franco,/E eu, de repente,/Me senti
como gente.
E você chegou lindo.../Comecei a te amar./Minha viva, tua vinda,/Você
sem notar.
Medo do futuro,/Em lá te perder./E mais te procuro./Eu quero viver.”
Entrei em parafuso. Afinal, eu conhecera Capítulo 14 numa situação muito
especial. Ela, com seus dois metros e não-sei-quanto de altura, estava
esperando o ônibus no abrigo do Inocoop, bem ali na Avenida Lauro de
Freitas, em Vitória da Conquista. Recém-saído da Ceasa, onde felizmente
tenho bons amigos, inclusive o vendedor de raízes Sari, estava naqueles
dias em que a lua cheia mexe com os sentimentos da gente. Aproximei-me
de Zulmira e, de bate-pronto, sussurrei:
Como é que você consegue ser tão grandona e bonita desse jeito?
O apelido pegou. A partir de então, mais por força dos amigos Carlyle,
Dirlei, Sandrinha e Marlúcia do que das viagens de Leonardo, Tico, Marcelo
e Murilo, todo mundo em Conquista passou a saber quem era A Grandona,
principalmente os leitores do Impacto e da Conexão.
Subimos pela Praça Victor Brito, onde lhe ofereci o primeiro acarajé
das festas juninas, nos embrenhamos pela Travessa dos Artistas e fomos
parar na Praça Barão do Rio Branco, onde pegamos um táxi para o Recreio
e suas mansões.
No que fomos entrando, Zulmira indagou, enquanto tirava os sapatos:
Você quer coca, braquiária ou Balantines?
É lógico que preferi um Domec que dormitava na estante da sala de visitas,
sobre um tabuleiro de xadrez. Capítulo 14 ligou a televisão e, entre
uma fungada e outra, foi me deixando inteiramente à vontade. Tirou a
roupa, jogou a calcinha sobre o fogão e se dirigiu ao banheiro, enquanto
eu apreciava um CD da história do samba. Como era doce ouvir A Grandona
cantarolando sob o chuveiro, procurando acompanhar Martinho da Vila!
Comecei a filosofar dentro de minha cabeça, achando que os homens, de
modo geral, não têm noção do que é a arte de se conquistar uma mulher.
Mas o certo é que, naquele momento, ali em Conquista, ouvidos atentos
ao som eletrônico e ao som gutural, eu me sentia o verdadeiro conquistador,
superior a Tom Cruise, Antonio Bandera, Leonardo Di Capri e outro s
pseudo-galãs. Por um motivo muito simples: Zulmira,
querendo; eu, fingindo que não. Existe sacanagem pior do que esta? Fosse
um ingênuo e já estava lá sufocando a coitada em seu purificante banho.
Quando saiu do chuveiro, lindamente despida em seus pelinhos multicores,
A Grandona provocou, como se falasse com um maricas:
E então, vamos ao show da Banda Eva, na Praça do Gil?
E eu, mais sem-vergonha do que nunca:
Claro que sim!
Isto, já lascando um dos meus beijos molhados na sua língua estorricada.
Sinceramente, nunca vi uma mulher tão desapontada como aquela, naquele
momento, naquele instante de indiferença suprema em que eu fingi trocá-la
por algumas horas ao lado de Ivete Sangalo.
Bastaram três beijos para que A Grandona entendesse a superioridade
do homem sobre a mulher. Engalfinhamo-nos em poses variadas, às vezes
ela por baixo, outras vezes eu por cima; derrubamos mesas e cadeiras;
bagunçamos a cozinha; ensopamos cobertas e cobertores; enfim, lá pelas
4 da manhã, Capítulo 14 – enfastiada como se fora um molambo – virou-se
para mim e indagou, em forma de ordenamento:
- Dá pra parar?
Eu abusei mais uma vez:
E por que você não pára de dar?
O que Zulmira não sabia é que, antes do encontro na Lauro de Freitas,
eu a enfeitiçara com uma garrafada preparada por Chico Preto, o Rei
do Vodu, e que continha urina e coliformes fecais dos sete príncipes
da magia negra: cobra, coruja, corvo, gato, lagarto, morcego e sapo
cururu. É por isso que, até hoje, A Grandona continua na minha cola.
Apesar de ter desaparecido exatamente às duas horas da madrugada de
hoje.
Capítulo 15
Quando
os sapatos se encontram
Valmira - Se Capítulo 13 foi a mulher que me fez acreditar que Deus
existe - e não faria nenhum mal se fosse Deusa - e Capítulo 14 me encantou
com seus vícios, suas taras e sua enorme capacidade de adorar a indiferença
masculina, Valmira estraçalhou meus princípios quando me fez conhecer
a beleza que é uma mulher gostar de outra mulher. Sempre, naturalmente,
amando o homem do seu coração, chamado eu.
É verdade que, anos atrás, eu me assustara com a cena do Teatro Galpão,
em São Paulo, ao lado de Capítulo 12, quando, pela primeira vez, vi
uma fêmea se engalfinhar na boca de outra. Mas Valmira foi muito mais
ousada, talvez porque, aí, a gravidez de biquíni da Leila Diniz nas
praias do Rio, as teorias de Madame Bovary, a minissaia de Mary Quant
e as bandeiras do movimento feminista espalhadas pelo mundo já extrapolavam
todos os escândalos conduzidos por Mário, Oswald de Andrade e os demais
participantes da Semana da Arte de 22.
No meu modesto Corcel vinho, após longa temporada de paquera (era esta
a forma de se dizer ficar), combinei com Capítulo 15 que a buscaria
em casa, para uma noitada no barracão que acabara de alugar num bairro
da cidade. A época era difícil, a polícia política, a chamada P-2 andava
vasculhando nossas andanças para rechear as inúteis pastas pretas, a
imprensa correndo atrás de um furo sensacionalista, mesmo sem paparazzi.
Enfim, Valmira entendera que não poderia pisar na bola com seu amigo
fiel, recém saído de 12 horas de labuta e necessitado de uma sumiço
passageiro.
Eu não sei se você entende o que é paixão por uma mulher, mas, naquela
noite, Valmira era simplesmente tudo que eu pretendia na vida. Uma mulher
pela Qual eu
saltaria fogueira, pularia dentro de cisterna e atravessaria na frente
de uma bazuca ou de uma carreta da Andrade Gutierrez, no deserto do
Saara, gritando “Alá, Alá...”
A desgraçada, parece que, só para contrariar - sem nenhuma referência
à banda mineira -, vestiu uma roupa preta que contrastava deliciosamente
com sua tez aloirada e foi me esperar na Praça da Matriz. O primeiro
arranque aconteceu ali mesmo. Estou tão inebriado com as lembranças
de Valmira que me esqueci de dizer que, naquele dia, eu estava gazeteando
uma prova de Medicina Legal marcada por dr. Hélio e que valia a passagem
daquele para o ano seguinte na Faculdade de Direito. (Esta é apenas
uma técnica para tirar a tesão do leitor, ou da leitora, no permanente
ciúme que mantenho por Capítulo 15).
Terminadas as exéquias, ensaiados os amassos, cumpridas as obrigações
eclesiásticas na Matriz, saímos direto para o Bairro Morada do Parque.
Direto não que, no caminho, Valmira pediu que eu passasse na casa de
sua amiga Carla, na Rua da Boa Vontade, ali no Santa Rita. Tudo bem,
respondi, e enfiei o Corcel pelas vielas da cidade, já então desenvolvendo
uma ótima fantasia surubática (ou seria sorubática?), diante das informações,
prestadas pela própria Valmira, de que estávamos nos dirigindo ao encontro
de um verdadeiro avião. “Um Boeing”, disse, “para ser mais modesta”.
Rapaz, quando me deparei com aquele 747, quase caí de costas! Capítulo
15 desapareceu diante do jato que abriu o portão e perguntou o que era...
Malandramente, fiquei na minha, mãos ao volante e ouvidos ligados no
rádio do carro. Já os olhos, que gulodice...
Parece mentira, mas o fato é que - exatamente naquele momento ali na
Rua da Boa Vontade - senti que era o dono do universo. Eu, num Corcel
velho e surrado, que tantas vezes me deixara na mão, ao lado de dois
monumentos da espécie humana, duas personagens que jamais lera em qualquer
livro e nunca vira em tela de cinema ou televisão. Meu rosto não parava
de rir. Minha cabeça não parava de pensar. Meu corpo não parava de querer.
Estava completamente intumescido.
A pedido das gatinhas, passei no Restaurante do Papai e comprei um litro
de uísque, umas dez latinhas de cerveja, uma pizza gigante e uns dois
refrigerantes tamanho família, mandando o Bê abotar. Mais feliz do que
menino quando ganha um pirulito, dirigi-me para o Morada do Parque,
na condição de rei das mais formosas princesas do chão de Minas. Chegamos,
abrimos a pousada da Rua Tu Peixoto (antiga Rua 14), despimo-nos do
calor sufocante e nos preparamos para um menàge a troi trivial. Pelo
menos na minha imaginação.
O que eu não sabia é que Valmira e Carla eram marido e esposa.
Decepção? Você acha que isso é decepção? Quando vi que as duas se embolavam,
lindas, lindas, sobre os lençóis, tomei duas providências: primeiro,
pedi licença para fazer uma foto que até hoje me causa arrepios, de
tão bonita que é aquela cena de uma mulher contemplando a do seu sexo
com aqueles olhos pueris. Depois, virei autoridade e dei um grito varonil:
“Eu também quero participar dessa porra aí”...
Uma decisão tão séria, um respeito tão profundo às querências do ser
humano, que até hoje continuamos perdidamente apaixonados. Eu, Valmira,
que no caso é a passiva, e Carla. Sem preconceitos.
Capítulo 16
Mulher
que gosta de apanhar demora a falar
Neusinha - Desde que estreara na redação do antigo Diário de Minas,
depois transformado em Hoje em Dia por obra de Tito Guimarães, inclinei-me
por uma baixinha comunicativa, riso largo e olhos espertos, que trabalhava
na editoria de Internacional. A
editoria de Polícia, da qual eu era o sub-editor, fechava por volta
da meia-noite. A de Internacional um pouco mais tarde.
A coincidência do horário de fechamento era um motivo a mais para descermos
as escadas do antigo prédio da Praça Raul Soares e tomarmos um chope
na pizzaria ao lado do Cine Nazaré. Ali, desenvolvíamos longas reflexões
sobre a (falta de) liberdade da Imprensa, debates que contavam com a
participação alternada do Ronaldo, Romero, Américo, Wilma, Aloísio,
Peninha, Regina, Juraci, Heloísa, Fabíola e o pessoal da diagramação
e do sindicato. Às vezes, formávamos até três mesas para chegarmos à
mesma conclusão de que nenhum jornal do mundo é independente.
A turma se desfazia paulatinamente e nos dirigíamos ao Clube Elite,
que, na verdade, é um barzinho de ex-casados onde se aplicam cursos
de danças em Belo Horizonte e que fica ali ao lado do Minas Centro,
na Curitiba. Que vem a ser a rua onde eu morava, numa república dividida
com Junô e Anselmo. Capítulo 16 e eu dançávamos tanto, do tango à meteórica
lambada, que amanhecíamos arrebentados e felizes, preparados para o
plantão e a nova rodada de debates, rega-bofes, forrobodós e trepações.
Por iniciativa de Capítulo 16, foi formada, numa sexta-feira 18, uma
turma para comemorar o meu aniversário. Cada um participaria com uma
garrafa de bebida ou um pacote de salgados, que a pretensão era atravessar
o fim de semana numa farra digna das maiores manchetes do Cabaré Mineiro,
aquele da Gonçalves Dias. O local escolhido, é claro, fora o apê deste
degas aqui, onde o Junô ensaiava uma banda de rock e se dispôs a fazer
a trilha sonora, enquanto participavam, ele e os da banda, da boca-livre.
Tudo correu numa boa, todo mundo na sua, um tomando sua cervejinha ali,
outro se deliciando com Coca com Vodka acolá, mais um consumindo o seu
viciozinho na cozinha. Como bom anfitrião, deixava que tudo corresse
à solta, além de bancar o garçom solícito, que a todos os pedidos atendia,
inclusive o de ceder a cama para relações variadas e de propósito ignoradas.
A banda zunia a toda altura, superando a barulheira da Avenida Bias
Fortes e seus milhões de automóveis.
Na tarde de domingo, 48 horas depois, todo mundo esfalfado, o estoque
secado, as roupas enrugadas, foi saindo um a um. Junô percebeu que estava
sendo demais e também se mandou. Ia dar um bordejo na Savassi, disse.
Ficamos Capítulo 16 e eu.
Não sei qual dos dois estava mais travado, mas a verdade é que Neusinha,
repentinamente, parece que sob a incorporação de Pomba Gira, desfechou
uma série de ataques à minha pessoa. Dizia que eu era milionário e que
era por isso que a submetia a meus prazeres; que, pelo fato de morar
no Centro de BH, humilhava as outras pessoas; que só dormia comigo porque
sua casa era muito longe, no Barreiro de Cima; que havia homens muito
melhores do que eu; que ia fazer eu engolir o jornal com a matéria da
mulher que matou o próprio filho na Barroca...
Para resumir a conversa: Neusinha, em prantos, implorou que fosse surrada,
espancada, esmurrada. Só então descobri que estava me relacionando com
uma masoquista. A partir dali, nosso relacionamento ficou bem melhor.
Demorou porque ela se esquecera de avisar.
Capítulo 17
O
sofrimento de viver com uma estátua
A Ceguinha – Eu sempre sonhava em namorar, morar, me casar com uma mulher
que não me enchesse o saco. Uma mulher santa, sobretudo virgem, que
concordasse com tudo que eu dissesse. E que, evidentemente, me considerasse
como o
homem mais lindo do mundo, acima de qualquer atorzinho de televisão.
Pois fui encontrar essa mulher na Bahia, mais especificamente em Bom
Jesus da Lapa.
A Lapa de Bom Jesus, como dizem os romeiros, com todo seu misticismo,
com o fervor da sua Catedral, com o lufa-lufa de sua ponte monumental
e um mundo de ônibus e paus-de-arara que não cabe nem na China, me colocou
de frente para Agda. Muda de nascença e com apenas 10% de capacidade
visual, Capítulo 17 já passara por todos os rituais católicos e satânicos
em busca da múltipla cura. Seu pai vendera três fazendas e 300 reses
no rastro de centenas de penitências, em vão.
Quis o destino que me encontrasse com A Ceguinha numa dessas jornadas
fervorosas. Tornamo-nos amigos, fiéis contritos aos mandamentos divinos,
eu sempre procurando mostrar-lhe a importância da perseverança e da
crença no impossível. Não demorou muito e Agda começou a balbuciar as
primeiras palavras. Isto quando a família, desesperada e sem recursos,
já a abandonara a seu próprio azar. Quer dizer, deixou o abacaxi nas
minhas mãos.
Capítulo 17 atendia a todas as minhas recomendações que só se vendo.
Uma gracinha! Claro que não sou nenhum Edir Macedo – senão estaria rico
-, mas me espantei quando, uma noite, próximo ao Clube Social, Agda
virou as bolas esbranquiçadas dos olhos e disse, entre tartamudeante
e sorridente: “Eu te amo”. Levou um mês para soltar a frase mas, para
nós, foi uma glória.
A partir dali, tudo mudou na nossa vida. Larguei todas as quatro mulheres
com as quais vivia e passei a me dedicar exclusivamente a Agda. Ganhei
importância imensurável na sua vida. Era como se fosse uma cadelinha
à minha disposição, para o que desse e viesse. Principalmente o que
desse. Eu a tratava com muito carinho, mas o carinho que ela me dava
era muito, muito superior. Cheguei a ficar até 24 horas ensinando-lhe
o alfabeto, letra por letra, vogal por vogal, numa tarefa incessante/insensata
que, felizmente, culminou com o seu aprendizado, a partir do momento
em que aprendeu a escrever o próprio nome e ganhou um vistoso e demagógico
Diploma de Alfabetização do Governo de Minas.
Como a curiosidade pública era muita, criei a lenda de que A Ceguinha
se curara durante uma visita à sala de muletas da Catedral de Bom Jesus,
onde até hoje se lê um cartaz com o seu nome e a data do suposto milagre:
11.12.1991. Coisa para beata acreditar e continuar enriquecendo as agências
turísticas das Américas. Aos poucos foi melhorando, também, a visão
de Agda. Capítulo 17 já conseguia distinguir entre eu e o Ratinho, por
exemplo. Dizia que a barriga do Ratinho era maior do que a minha, o
que já era um santo progresso. E motivo de muita comemoração, a calcinha
toda molhada.
Aí começou a bagunça. Na proporção em que se expressava com naturalidade,
longe daquela mudinha que eu conhecera, e que passava a enxergar além
do nariz, Capítulo 17 mudou completamente o seu comportamento. Não mais
a mulher submissa, que a tudo atendia, que me entendia, que aceitava
os meus complexos e preconceitos. Não mais a mulher quietinha no seu
canto, que apanhava sem reclamar, que aceitava as minhas taras, que
cumpria – religiosamente – os meus ditames.
A Ceguinha virou outra pessoa. Resolvi voltar com ela para a Bahia.
Talvez fosse questão de clima... Qual nada! Na Praça das Nações Unidas,
em Candiba, com a visão 80% melhorada, encarou tanto um fazendeiro amigo
do prefeito, que fui obrigado a chamar sua atenção em público, o que
nunca fizera antes. Em Palmas de Monte Alto, pecado dos pecados, gritou
comigo em frente ao mercado, com um vozeirão que mais parecia Pavaroti
em final de Copa do Mundo. Em Matina, cuspiu sobre meu conhaque só porque
sugeri que ela passasse a usar lentes de contato ou fizesse uma microcirurgia
a laser. Mas a gota de lágrima derramou, mesmo, quando, na Praça Cel.
Zeca Leite, em
Brumado, Agda pulou porsobre o regato artificial e começou a comer peixinhos
ornamentais, junto com pedras e lodo. Não é preciso ficar aqui dizendo
que Capítulo 17 enlouquecera. Eu é que não fora.
Naquele momento, lembrei-me de Capítulo 12. Só que, na Praça da Santa
Casa, em Montes Claros, Kátia se limitara a se deixar fotografar na
piscina pública, saudosa das águas salgadas de Jacarepaguá/Barra, enquanto
A Ceguinha enchia a barriga com os peixes miúdos da Praça da Prefeitura.
O negócio foi tão feio que estragou a apresentação cívica da fanfarra
de Caetité, que se juntava aos alunos do Colégio Estadual de Brumado,
em números variados de folclore, concertos e folguedos, na quadra do
coreto, entupida de gente.
Um vexame!
Já madrugada nos embicamos para Guanambi, onde, no projeto de irrigação
de Ceraíma, encontrei um lago desses de pesque-pague e deixei A Ceguinha
com um homem chamado Fernando. A vida é desse jeito. Só agora é que
cheguei à conclusão de que é preferível, mil vezes, uma mulher que fale,
ouça e escute. Como as outras 73 que eu amei.
Capítulo 18
Por
aquele pedação de mulher, quase virei padre
Cida - Amar é algo sobrenatural, mas é sobretudo anormal. É difícil
encontrar-se um cachorro apaixonado por uma cadela. Vai-se o cio e o
amor desaparece. Assim acontece com os demais animais, à exceção do
homem, que jamais esquece os seus amores. Dizem que há, também, o caso
do tatu, que jamais se esquece do buraco antigo. Houve uma Cida em Bocaiúva
que desestruturou meus sentimentos. Por ela, rompi os dogmas antirregiliosos
e me integrei ao grupo de jovens da Igreja de Senhor do Bonfim, passando
a freqüentar todas as reuniões de quinta-feira. Parecia um padre de
passeata, como dizia Nélson Rodrigues, faltando apenas os paramentos.
Nada daquele niilista de antanho.
Era uma gracinha, um coroinha, ou melhor, um coroa misturado a jovens
imberbes e garotas recém-menstruadas, lendo os livros da Bíblia e fazendo
profundas reflexões sobre o cristianismo. Cinicamente, dava depoimentos
sobre minha vida, falava da minha conversão a Cristo, e até assistia
às missas dos domingos. Que pecado! Tudo isso por causa de Cida. E,
de alguma forma, também da Karine, que vinha a ser sua companheira inseparável
e que ficava o tempo todo me dando conselhos e me ensinando a beijar,
coisa inacreditável para um senhor rodado na vida e uma menina de 19
anos. Uma manhã, ficamos cerca de 30 minutos atracados um aos lábios
do outro, para, depois, ela dizer que fizera aquilo por gostar muito
de Cida, já que eu não sabia acarinhá-la... O episódio foi em sua casa,
próximo à Praça de Esportes, enquanto Cida, ingenuamente, trabalhava
nos preparativos da procissão do santo mais venerado da região. Ô coitada!
O relacionamento se estreitou, até cair na inevitável proposta de casamento.
Aí, fui obrigado, quatro meses depois (é a média), a dar um definitivo
adeus às delícias da cidade morena. Mas Capítulo 18, com sua voz meiga,
seu corpo sempre quente, a boca eternamente molhada e uma cabeça incrível,
jamais sairá do meu coração. Foi amor de verdade.
Capítulo 19
No
meio do jantar, uma confissão inexplicável
Gina - Amor de verdade, também, tive pela Gina, do lado de cá do mapa.
A convivência profissional acabou desembocando num relacionamento acalorado,
inesquecível sob todas as formas. Extremamente tímida, Capítulo 19 se
transmudava quando ficava entre quatro paredes. Virava o cão. Aliás,
foi com ela que, assustado, vi a primeira pessoa fumando maconha. Foi
assim: eu, pelado ali defronte do canal 4, assistindo às indecências
das fitas do motel, e ela na salinha envidraçada ao lado, fazendo o
seu baseado e rindo desbragadamente pelo sucesso da transa. Depois,
ficou lá pitando, enquanto eu devorava meu gin-tônica.
Foi Gina a primeira mulher a declarar que adorava minhas pernas e que
sentia um prazer imenso em não machucá-la durante as penetrações. Esse
duplo elogio ao corpo e à mente é apenas demonstrativo do carinho com
que sempre trato as do outro sexo, antes de possuí-las integralmente.
Não é à-toa que fui sagrado como massagista de madame e o homem mais
gostoso da cidade.
São incontáveis os contatos que mantivemos ao longo do tempo, até que
me mudei para Belo Horizonte. Na tarde da sessão de votação do impeachment
de Newtão, Gina adentrou a Assembléia Legislativa toda linda e sorridente.
A paixão voltou na hora, numa euforia que assustou até aos seguranças.
Almoçamos por ali mesmo e combinamos passar a noite juntos. Não sei
por que cargas d’água, quando jantávamos no Arroz com Feijão, na Avenida
do Contorno, virei-me para Gina e disse-lhe, na maior cara-de-pau, que
jamais voltaríamos a ter um relacionamento intenso como acontecera até
então. E que ela jamais seria a mulher da minha vida. Acabou a noite.
Anos depois, durante uma festa no barzinho Chica da Silva, Capítulo
19 desabafou, entre lágrimas, num canto do balcão: eu a decepcionara
profundamente, porque me considerava seu guru, a pessoa que mais amava,
e eu dera aquele fora indelicado e frustrante, sem quê nem pra quê.
Tentei reconciliar, jurando amor eterno. Sem chance. Até hoje meu coração
está ferido. São essas anormalidades que diferem o homem dos demais
animais mentirosamente tidos como irracionais.
Capítulo 20
Desta
vez, o flagrante foi no jardim de inverno
Yasmim – Enganam-se os que afirmam que toda mulher bonita, especialmente
quando loura, é burra. Yasmim, além de linda e maravilhosa, é uma mulher
cujo QI ultrapassa o grau 200. Elegante, herdeira de um patrimônio incalculável
em Ilhéus, nem assim Capítulo 20 se deixa levar pelo orgulho que enfraquece
os mais fracos. Extremamente bondosa, dá vazão à espiritualidade paterna,
usando a matéria apenas para o engrandecimento cultural, através de
viagens internacionais e da aquisição de obras de arte, CDs clássicos
e de milhares de exemplares da literatura universal, pois que sua quilométrica
biblioteca vai até ao teto barroco da mansão do centro da cidade.
Também professora, naquele tempo Yasmim publicava poemas em jornais
baianos, sempre sob pseudônimos, talvez temerosa da censura por parte
dos leitores conservadores, pois poucas pessoas sabiam do seu querer
erótico, implícito nas poesias explícitas. Aprendi muito com Capítulo
20, com quem atravessava horas falando de assuntos gerais, bebendo os
gênios da humanidade e comendo as corda do Di Giorgio com o qual ela
me ensinava a tocar. A amizade se estreitou, virou namoro, mas nem assim
despertou a atenção do marido. Ao contrário, sempre que me encontrava,
o convite era batata:
Vá lá em casa. Yasmim adora conversar com você...
O homem não sabia o risco que estava correndo seu amor próprio, sua
auto-estima. Até o dia em que nos flagrou no jardim de inverno trocando
um ardente beijo na boca. Pigarreou, deu meia volta e foi ver televisão.
Não sei que tipo de apelo tinha aquele tal de Sérgio Chapelin para proporcionar
tão disparatada troca. Naquela noite, dormimos na poltrona.
Dormimos, não, que eu não era louco de expor minha vida à mira do inimigo,
embora pudesse ouvir, cá do salão, os roncos vindos do segundo andar.
Dias depois era selada a separação do casal. O que fez com que, em vez
de esquentar, esfriasse a relação entre eu e Capítulo 20. Não tenho
remorso. Por todos os momentos de prazer que vivemos, acho que fiz um
bem à humanidade.
Capítulo 21
Ela
filosofava até nos momentos mais dramáticos
Chafia – Tão meigo, ameno e apaixonante relacionamento tive com Chafia
que até hoje não sei porque não estou ao seu lado. Seria excesso de
prazer? Alguns janeiros mais nova do que eu (ela de Virgem, eu de Capricórnio),
Capítulo 21 tinha em mim uma espécie de pai. E era paternalmente que
eu a tratava. Cuidava direitinho de Chafia, colocando docinho na sua
boca, dando umas palmadas no seu bumbum, ensinando-a a trepar coqueiros,
dando-lhe – diariamente – um banhozinho de gato. Era amor mesmo!
Sua visão de mundo me impressionava. Embora jovem, Chafia dominava discussões
com os intelectuais do Morro, como Agnaldo de Seo Crispim, Vieirinha,
Roldão, Selma, Luquinhas, Ró, Bete, Dimas e Roberto. Essa turma era
tão metida a cientista que acabou construindo o primeiro foguete do
Brasil. O lançamento, ao qual compareceram Cícero Baé, Celso, Lóia,
Cristina, Beatonga, Clareth, Haroldo, Wílson, Zeca, Betinho, Nilsinho
e Onofre Carne Preta, foi um acontecimento. Com aquele monte de gente
em volta do campo de futebol, Elias acendeu o pavio da pólvora e correu
pra junto do povaréu. Uma festa!
Piiiiiiiiiiiiisssssssiiiiiiiiiiii....
O foguete subiu uns três metros, embicou pro lado da rapaziada, que
saiu em disparada, e foi estourar no telhado de Mílton Baleiro, destruindo
a gaiola do papagaio e detonando a penteadeira do quarto de João Soinho.
Em meio ao tumulto, Capítulo 21 filosofou: “Só se chega ao céu através
do rompimento de nossas limitações”. Passados tantos anos, até hoje
não entendi bem sua colocação. Ao contrário, Chafia sempre absorveu
– muito bem – todas as minhas colocações.
O apelido fora dado por mim durante um cruzamento de planetas, aquela
mistura de estrelas que volta e meia explode na mídia e frustra nós
cá de baixo, os terráqueos. A partir dali, sempre que a lua se enche,
Chafia desponta majestosa no firmamento. Não dá para esquecê-la. As
duas se parecem tanto que, fosse feito um exame de DNA e certamente
se chegaria à conclusão de que a estrela aqui da terra é filha daquela
constelação lá de cima, que encanta os meus olhos e me deixa com essa
cara de bundão.
Capítulo 22
Uma
amiga que me triturava na cama
Sapeca – Foi, disparadamente, à exceção de Capítulo 74, o melhor bumbum
que se assentou em minhas coxas. Capítulo 74 é daquelas mulheres apaixonantes,
sempre sorridente, exalando alegria por todos os poros, transmitindo
um astral cada vez mais
24
para cima, enfim, um doce em permanente fervura. Com Sapeca não há daqui
a pouco, não há talvez, não há deixa eu ver. Chamou, ela está sempre
disposta, mochila na mão, pronta para ir para qualquer lugar. Pelo menos
era assim comigo. De Porto Velho a Trancoso, de Belo Horizonte a Fortaleza.
Tanta disposição, tanta determinação, tanto afeto culminaram com uma
amizade duradoura. Sexo seria apenas conseqüência. Aqui, uma confissão:
demorei muito tempo a transar com uma mulher quente como Capítulo 22.
Ela me triturava na cama, me fazia de gato e sapato, arrasava meu machismo,
me transformava em seu bonequinho de prazer. Sem nunca perder a tesão.
Queria sempre mais e o único jeito de aplacar sua tara era dar-lhe uma
caipirinha, que ela sorvia com igual sofreguidão energética.
Os que chamam Capítulo 22 de Sapeca Bundão – apenas pela aparência –
não imaginam a extensão de caráter que há dentro daquela mulher. Tão
digna e honesta, que jamais me traiu, embora sabendo das outras relações
e até se relacionando com alguns dos meus amores. Era amiga mesmo! E,
com certeza, continua a sê-lo. Sem selo.
Capítulo 23
A
produção independente que não aconteceu
Gusta - Não tão fogosa como capítulo 22, mas também necessitada de sexo
contínuo, Gusta muitas vezes colocava o amor acima de uma boa trepada,
o que me deixava intrigado. O detalhe é que, como a grande maioria das
minhas amizades, o primeiro encontro com Gusta surgiu de uma polêmica
até hoje gerando arrependimentos por parte do colunista que disse ao
seu ouvido: “Você é muito bonita, independente financeiramente, culta,
merece coisa melhor...” A coisa pior a que ele se referia era aquele
jegão que dançava com ela no meio do salão.
Entre gargalhadas, Capítulo 23 me segredou a história, deu uma banana
para o desconsiderado, passou a dançar ainda com maior desenvoltura
e, já madrugada, me levou para uma sessão ao piano que misturava clássicos
de Verdi, Bah e Mozart a chorinhos de Chiquinha Gonzaga, folclore latino,
valsas, boleros e composições de Tom Jobim, Vinícius de Morais, João
Bosco e Aldir Blanc.
Que noite! Que madrugada! A amizade continua a mesma, embora sem a freqüência
das deliciosas transações ora no banco da frente do fusca (para matar
a saudade de Capítulo 11), muitas vezes em motéis e outras tantas debaixo
da cama, para não chamar a atenção da gurizada atenta ao inhenhén da
cama de casal. Outra confissão: como a Xuxa (embora sem comê-la), Gusta
sempre buscou uma produção independente, mas, até hoje, não teve a Sascha
tão sonhada por nós.
Capítulo 24
Seu
orgasmo era tamanho que produzia convulsões
Claudona – Hoje morando em Sete Lagoas, Claudona continua com o mesmo
charme, a mesma classe, a mesma elegância que a diferencia de outras
mulheres. Expulsa de casa pela gravidez prematura (lógico, na visão
de seu pai), embrenhou-se pelo mundo, apanhou, comeu o pão que Satanás
amassou e acabou caindo nos braços de um homem liberal, atencioso, disposto
a ouvir seus reclames e a entender sua depressão crônica.
Morena clarinha, estatura avantajada, Claudona ostentava um sorriso
desse tamanho entre lágrimas incompreensíveis. Chorava de sua própria
felicidade e ria de sua própria desgraça. Era isso que ela queria que
as pessoas entendessem. Daqueles lábios
enormes saíam ensinamentos preciosos. Aprendi muito com Claudona, sobretudo,
compreender o sentimento do ser humano, por mais abjeto que seja.
Capítulo 24 apaixonou-se tanto por mim que passei a ter medo de sua
paixão. Sem evitá-la. Nas muitas vezes em que nos encontrávamos, Claudona
parece que devorava tudo que havia em mim, com uma ânsia implacável.
Chegava a vomitar de tanto prazer, lambuzando minha roupa e me obrigando
a me sujar de terra, me ensopar de gasolina, para não ter problemas
em casa. Mas eu adorava o seu vômito e voltava na noite seguinte para
levá-la novamente à convulsão orgástica.
Qualquer dia irei revê-la na cidade dos lagos. Com ou sem enjôos.
Capítulo 25
Do
vexame das formigas ao enxame de abelhas
Míriam - Quando seu tio a apresentou, teve a desdita de me recomendar,
meio sério, meio irônico: “Cuidado, que ela é virgem!” A partir daquele
dia, Míriam não saiu do meu pensamento e de minha ação. Passou a ser
marcação cerrada, como um lobo faminto atrás de um pedaço de carne.
Era necessário que se iniciasse um namoro para que o avanço prosseguisse.
Iniciaram-se, então, os agrados a Míriam, que toda mulher adora ser
presenteada e adulada.
O que mais aguçava meu apetite era o cheiro de virgem que toda virgem
tem. Um odor suave, ameno, adocicado. Muito séria, Capítulo 25 exigia
– sem impor – um tratamento respeitoso, o que, aliás, era norma da família.
Aquele negócio de namorar em casa, chegar até 9 da noite, não beijar
em público... Tudo isso foi me cativando até apaixonar-me por inteiro.
A primeira escapada aconteceu numa festa de noivado que se realizava
na roça. Aproveitei-me da distração do pessoal e saí com Míriam para
o fundo do quintal. Quando já havia conseguido deitá-la ao chão, Capítulo
25 levantou-se de uma vez, coçando exasperadamente as costas, as pernas,
os braços, as mãos, tudo. Eram formigas, daquelas pequenininhas, pretinhas,
conhecidas como jaquitaias. Sua picada arde mais do que a peste. Toda
empolada, Míriam correu para o banheiro, demorando a explicar para os
convivas e parentes por que aquele banho fora de hora.
O certo é que aquele formigamento campal aumentou o fogo da menina que,
com o passar dos dias, foi se interessando mais pela pesquisa corporal,
apesar dos não-me-toques de todo início de ritual erótico. Tornamo-nos
homem e mulher, já com um certo consentimento da família, inclusive
do tio. A auto-descoberta melhorou substancialmente nosso relacionamento.
Não posso negar que sexo tenha sido uma constante substancial nessa
relação, até porque o vocábulo já sugere isto. Mas a afinidade e o afeto
que me uniam a Míriam eram algo comum à convivência com as demais mulheres,
o que me convenciam de que tudo era absolutamente normal. Algumas cenas
marcaram esse concubinato, como a noite em que Capítulo 25 saiu desesperada
da piscina do motel, fugindo de um enxame de abelhas chinhenhen que
se juntou aos seus cabelos. Muito mais interessante, àquela altura,
do que o vexame das formigas no fundo da fazenda.
Momentos assim tragicômicos a deixavam leve e descontraída, o que quer
dizer que muitas vezes eu os provocava apenas para aumentar a força
daquela paixão até hoje muito viva dentro de nós
Capítulo 26
A
doçura que eu perdi para as revistas de sacanagem
Lílian – Acabara de acordar quando a campainha tocou. Assim por volta
das 7 da manhã. Lílian soltou duas grandes bolsas no chão e, como fazia
sempre, abriu os braços e gritou meu nome no diminutivo. Não deu tempo
para que eu respondesse o caloroso cumprimento.
Vãobora. Régi! Vãobora! Anda, vamos, vamos!!!
Não entendi. Ela continuou, a voz mais estridente do que nunca.
Você está me enrolando esse tempo todo mas, agora, chega! Vamos pra
Porteirinha, que eu quero apresentar você para meus pais. É lá na roça,
pertinho da cidade. Anda, anda logo!!!
Minha reação não poderia ser diferente.
Você está louca, Lílian? Como é que eu vou viajar assim de repente?
Você pirou?
Capítulo 26 deu aquele risinho de canto de boca que me deixava louco
e provocou.
Que nada, Régi... Você está é com medo da responsabilidade.
Responsabilidade de quê, Lílian?
De me assumir de vez. Todo homem é assim: usa a gente, diz que faz tudo
pelo amor, jura que se sujeita a qualquer sacrifício e, na hora agá,
pula fora. E então, você vai ou não vai?
Esta pergunta foi repetida 258 vezes até Capítulo 26 convencer-se de
que teria de viajar sem mim. Jacqueline e Felisberto ficaram morrendo
de rir, no Santa Lúcia, quando ficaram sabendo do episódio e, sacanas,
me aconselharam a pegar a estrada ensolarada de Porteirinha e ir atrás
de Lílian. Até que seria interessante, mas a razão superava a emoção.
Capítulo 26 é uma baixinha linda. Atriz emergente, encantara a platéia
na semana anterior com um strip-tease generoso. Suas formas são marcantes,
começando pelo rosto macio e delicado, emoldurado por duas covinhas
e uns olhos pretos e cintilantes, desses que não param de piscar um
milésimo de segundo. Os cabelos, também pretos, são anelados e cobrem
os ombros, sempre espiando os seios empinados, do tamanho de duas bolas
de tênis. Barriguinha de praia, as nádegas de Lílian só poderiam ser
criação de Deus Nosso Senhor. É difícil para um homem fazer tão esplendorosa
formosura... A penugem não cessa de tremular. As coxas são saborosas,
as canelas quase finas se sustentam sobre dois pezinhos de dar água
na boca de qualquer pedófilo. Ou não.
Terminado o espetáculo, dois caça-talentos que se diziam paulistas foram
ao camarim convidá-la para um ensaio numa revista erótica.
Acho que a cena das bolsas soltas no alpendre do Bairro São José era
a senha que faltava para que Lílian se libertasse de vez. Dias depois
o Dener do Caldo de Cana me contou que, em vez de Porteirinha, Capítulo
26 partira para São Paulo. Deste então, compro todas essas revistas
pornográficas para ver se identifico, entre os figurantes daquelas historietas
sem roteiro nem enredo, o rostinho ingênuo de Lílian.
Ô dó de mim!
Capítulo 27
Foi
assim que a doidinha se desendoidou
Maria Doida – Esta era assumidamente louca. E não precisava sair gritando...
Ficava o dia inteiro no passeio em frente a sua casa, gesticulando e
recitando em voz alta as questões que a levaram a ser reprovada no vestibular
de Medicina. O que era motivo de chacota para uns e de pena para outros.
Branquela e magricela, Capítulo 27 ficava dias sem se alimentar. Em
compensação, tomava café o dia todo, que esta é uma característica dos
desajuizados.
Passei por Maria Doida uma, duas, três vezes. Resolvi abordá-la. A princípio,
nem tchium. Continuou formulando suas equações, recapitulando teorias
genéticas, declinando os tempos variados dos verbos. Entrei na dela.
Utilizando a psicologia aplicada, imitava tudo que a maluquinha dizia.
Maria Doida dava o mote de lá, eu repicava de cá. Agora eram dois malucos
sob observação pública. Incorporei tão bem o papel que, daí a pouco,
não se sabia o grau de insanidade de cada qual.
Com a técnica da reversão, fui trazendo Maria Doida para o mundo real,
fazendo com que ela passasse a ser o seu espelho. A transferência funcionou
cem por cento. Quando os da casa viram Capítulo 27 conversando animadamente
comigo, foi uma festa. O impossível acontecera: Maria Doida já não era
tão doida assim. Convidaram-me para entrar e me ofereceram café com
bolo, que recusei educadamente, temendo adquirir a tal síndrome.
Ordenei Capítulo 27 a ir tomar banho e trocar a roupa de três dias.
Ordenei, sim, com a aquiescência da família, sobre a qual passava a
ter amplo domínio. Para os pais e irmãos de Maria Doida, era Deus no
céu e eu na terra.
Enquanto aguardava seu retorno, ficava pensando: teria Maria Doida sido
vítima, realmente, da derrota no vestibular? Horas depois saberia que
não. O mal dela era outro. Desde que fora seduzida, aos 13 anos, na
balsa de Maria da Cruz para Januária, sobre as água do Velho Chico,
Maria Doida andava louca para sexuar a céu aberto, mas não encontrava
cabra arretado para saciar sua fome. O vestibular fora |