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O Monstro • Amor • A Formiga • Seu marido sabe que...? • O dia em que meu corpo morreu A FORMIGA QUE QUERIA SER CIDADE E VIROU PRINCESA PRIMEIRO QUADRO ENTRAM TODOS OS ATORES EM CENA, CANTANDO: "Nós somos a história de Montes Claros/E viemos apresentar/Todos os nossos personagens/Que a Memória vai contar". (ACABAM DE CANTAR E ABANDONAM O PALCO. ENTRA EM CENA A ATRIZ "MEMÓRIA): - Senhoras e senhores, eu sou a memória de Montes Claros. Sei, de cor e salteado, toda a história desta cidade. Sei, por exemplo, que, para que estivéssemos aqui, hoje, centenas de índios foram sacrificados pela mão do branco. (ÍNDIOS DESFILAM PELO PALCO). Isto aconteceu quando, em 1691, 600 homens partiram de São Paulo em direção a Minas Gerais. Aqui, vinham combater um movimento indígena que intranqüilizava as populações e arrebanhar escravos para o mercado negro... Durante sete anos eles comandaram uma guerra fria (HOMENS BRANCOS ATACAM NEGROS, DANDO MOVIMENTO À CENA, ENQUANTO MEMÓRIA VAI FALANDO), matando e aprisionando os nativos. Os vencidos foram divididos entre os chefões, sobrando 700 para o Alferes Antônio Gonçalves Figueira. FIGUEIRA (DE UM PULO, ENTRA EM CENA, NERVOSO) - Epa, mexeram comigo! (DIRIGINDO-SE À PLATÉIA) - Eu não falei com vosmecês? Essa Memória não tá com nada. Muito antes dessa história que ela contou aí, eu já conhecia Montes Claros. Se bem que a primeira vinda, à caça de esmeraldas, não foi bem sucedida, não. Nós largammos Fernão Dias sonhando no sertão e volvemos a São Paulo. MEMÓRIA - Eu acho que a história não é bem assim, não... FIGUEIRA - Tá aqui meu companheiro (ENTRANDO) Matias Cardoso, que não me deixa mentir. MATIAS (MONTADO NUM CAVALO-DE-PAU, JUNTAMENTE COM SEU FILHO JANUÁRIO CARNEIRO) - Exatamente. Esta é a segunda experiência expedicionária do Capitão Figueira, que é homem de palavra. Mas, agora, Capitão, cumprida a missão, aprisionado o braço escravo, todos retornaremos a São Paulo. (MEMÓRIA SAI) FIGUEIRA (RESOLUTO) - Mestre Matias, não conte comigo pra volta, não. Agora eu vou é plantar cana e criar boi! MATIAS - Mas quem foi que disse a vosmecê que vou voltar, Capitão Figueira? Assunta vosmecê qu'eu cá gosto mesmo é dum peixim assado na brasa e já arresorvi: vou pras barrancas do São Francisco com meu filho Januário Carneiro. Com a proteção divina (TIRANDO O CHAPÉU), vou fundar as povoações de Morrinhos, São Romào, Amparo... FIGUEIRA - Ora, pois que não Mestre Matias? Essa zona é muito chegada às pastagens e, como sou devoto de um churrasco batuta. por acá eu vou ficando. MATIAS - Assunta Capitão que na bacia do Rio Pardo tem uma fazenda que dá gosto. FIGUEIRA - Pois é pra lá que eu vou, santo homem. Vou fundar a fazenda Brejo Grande e montar o primeiro engenho de cana deste sertão brabo. MATIAS (FELIZ) - Ah, mas ainda hei de provar da cachacinha do Capitão. Claro, Capitão, isso numa ocasião oportuna. Agora, se me permite, vou me arretirar com minha tropa (O "CAVALO" DE MATIAS É "ARREADO" POR JANUÁRIO). Ah, sim, Capitão, vou virar nome de cidade. É... cidade de Matias Cardoso! (TIRANDO O CHAPÉU) - Que Deus te dê uma boa sesmaria, Capitão! FIGUEIRA - Nós merecemos, Mestre Matias. Nós e o Governador Geral... MATIAS - Januário, meu cavalo já está arreado? JANUÁRIO (ENTREGANDO O CAVALO) - Pois não, meu pai. Está aqui. MATIAS (MONTANDO) - É hora de ganhar estrada. Adeus, Capitão Figueira. FIGUEIRA - Deus que te acompanhe, Mestre Matias. Adeus, Januário, e vê se olha o velho aí por essas estradas poeirentas. (ASSIM QUE OS DOIS SAEM, OUVE-SE BARULHO DE ÍNDIOS. CABO FIRMINO, QUE FAZIA FUNDO DE CENA DESDE O INÍCIO, APROXIMA-SE DE FIGUEIRA, ASSUSTADO) CABO FIRMINO - Que barulho é esse, Inhô Mestre? FIGUEIRA - Sei não, vamos assuntar. FIRMINO - Capitão, Capitão, são os índios. FIGUEIRA - Chama a tropa, homem! Cadê meu trabuco? (OS ÍNDIOS SURGEM NESTE MOMENTO, TRAVANDO VIOLENTA LUTA COM OS CAPANGAS DE FIGUEIRA) CAPANGA - Matei um, Capitão. (ASSIM QUE GRITA, O ÍNDIO SE LEVANTA E SAI CORRENDO) FIGUEIRA - Pega aquele desgraçado pra mim. (CABO FIRMINO SAI CORRENDO E VOLTA COM O ÍNDIO) FIGUEIRA - Esses índios não deixam a gente trabalhar pelo progresso do Brasil. FIRMINO (COM O ÍNDIO DOMINADO) - Não é à-toa que eu sou o homem de confiança do Capitão. Tá aqui o desgraçado, Inhô Mestre. FIGUEIRA (EXAMINANDO A DENTADURA DO ÍNDIO) - Que raça é essa? FIRMINO - São os Tapuias, Capitão. Uma raça braba e perigosa. Pela cara, esse aqui deve ter vindo lá das bandas de Grão Mogol. (OS ÍNDIOS SÃO ARRASTADOS DO PALCO. ENTRA, AFLITA, MEMÓRIA COM UM PAPEL NA MÃO) MEMÓRIA (ENTREGANDO O PERGAMINHO) - Capitão, Capitão, chegou isso pro senhor. Pelo jeito, foi o Governador Geral que mandou... FIGUEIRA (SORRINDO) - Deve ser o pagamento... MEMÓRIA - É, é, só pode ser. FIGUEIRA (ASSUSTADO) - Meu Deus, será verdade? MEMÓRIA (TOMANDO O PAPEL PARA LER TAMBÉM) - É verdade, sim, Capitão. Vosmecê acaba de ganhar uma sesmaria de légua e meia de largo por três de comprido, situada nas cabeceiras do Rio Verde. É uma região riquíssima, Capitão. (RECITANDO) Tem aroeira, tem pequizeiro, imburana e pau-preto. Tem siriema e jacu, ouro e malacaxeta. FIGUEIRA - Mas é verdade, homem? MEMÓRIA - Claro, santa criatura. Olha, Capitão, na verdade eu acho que vosmecê ganhou foi na Quina, na Sena e na Esportiva de uma vez... FIGUEIRA - Meu Deus, eu não mereço tanto. FIRMINO - E tem muié? MEMÓRIA - Mas é claro, Cabo Firmino. Tem cada índia que dá gosto de fazer besteira (FAZ O GESTO)... FIGUEIRA (CAINDO NA REAL) - E que dia é hoje? MEMÓRIA - Hoje é 12 de abril de 1707. FIGUEIRA - Pois vãobora, Cabo Firmino. Chama a tropa que, agora, nós vamos conquistar esse Norte de Minas. FIRMINO - Tropa, tropa, o Capitão tá chamando! MEMÓRIA (ENQUANTO A TROPA "CAVALGA", PERFILADA) - E assim, depois de fundar as fazendas de Jaíba e Olhos D'água, Capitão Figueira vai, agora, estabelecer a Fazenda dos Montes Claros. Agora, tem uma coisa: eles estão alegres assim (A TROPA RI) é porque não sabem que lá só tem formiga... (SAI DE CENA) (A TROPA ESPREGUIÇA, OUVINDO-SE AO FUNDO, JUNTO COM OS RONCOS, RUÍDOS DE PÁSSAROS) x=x=x=x=x=x=x=x=x=x=x=x SEGUNDO QUADRO FIRMINO (ABRINDO OS OLHOS) - Dormiu bem, Capitão? FIGUEIRA (LAVANDO O ROSTO NUMA BACIA) - Dormi nada, homem! Tem cada muriçoca aqui que nem um navio cheio de balas dá conta. Será que a gente não arruma bosta de boi por aqui não? FIRMINO - Oxente! E bosta de boi é bom para matar muriçoca? FIGUEIRA - Uma beleza, Firmino. É só deixar queimar a noite inteira e não sobra nem uma dessas seresteiras miseráveis. (FIRMANDO O OUVIDO) - Bem que aquela sujeita falou, Firmino. Eta lugarzinho bonito! Tem até passarim... (DIRIGINDO-SE A OUTRO CAPANGA) Que café mais demorado é esse, homem? CAPANGA - Tá quase pronto, Inhô Mestre. Firmino, ondé qui tá a rapadura? FIRMINO (COM AR DE GOZAÇÃO) - Cê ainda é do tempo que fazia café com rapadura? Usa garapa de cana, homem! CAPANGA (ABRINDO UM EMBORNAL) - Destá, destá, achei, tá aqui. FIGUEIRA (APONTANDO PARA O HORIZONTE) - Vejam, vejam! Que diabo é aquilo? FIRMINO - São os montes claros, Capitão! FIGUEIRA - Montes o quê? CAPANGA - Montes claros, Capitão! Pois não foi isso que despertou a atenção do Mestre? FIGUEIRA (IRRITAD0) - Cês tão cegos, diabos? Não tão vendo aquela desgraçada que vem pela estrada dos Veados, não? FIRMINO - Onde, onde? CAPANGA - Ué, cumé que ela vei parar aqui? FIRMINO - É ela mesmo, Capitão. E vem vindo a pé... FIGUEIRA - Prepara as armas. MEMÓRIA (ENTRANDO COM UMA BANDEIRINHA BRANCA NA MÃO) - Calma, pessoal! Calma qu'eu sou de paz. O que é isso, Capitão? A memória de Montes Claros já é tão fajuta, tão esquecida, e vocês ainda querem acabar com ela? Vamos devagar... FIGUEIRA - Abaixem as armas. Cumé qui ocê vei parar aqui nas barrancas do Rio Vieira? MEMÓRIA - Vim pela sombra, Capitão. Tá um sol danado, mas eu vim pela sombra. Cadê o café? FIGUEIRA (AO CAPANGA) - Serve café pra essa Maria Moura aí. MEMÓRIA (TOMANDO CAFÉ) - Gostou da sesmaria, Capitão? FIGUEIRA - É uma beleza! Tem algumas muriçoquinhas, mas isso a gente arresorve com bosta de boi e a fumaça da prefeitura. Já mandei os homens roçar aquele mangueiro ali (APONTA), que é lá que vou construir o curral. Está vendo aqueles montes? MEMÓRIA - Claro, claro. FIGUEIRA - Pois é lá que eu vou fazer minha morada. Aliás, acho que vou chamar isso aqui de Fazenda dos Montes Claros. Gostou do nome? MEMÓRIA - Fazenda dos Montes Claros? Maravilhoso, Capitão! (ENTREGANDO O CANECO AO CAPANGA) - Olha, Capitão Figueira, isso é nome pra ficar na história. Daqui a pouco começam a chegar boiadeiros, tropeiros, negociantes. Logo logo isso aqui vira uma São Paulo... FIGUEIRA - Pois eu não quero isso não. Eu quero viver uma vida de paz e tranqüilidade. Nada de progresso. Não é à-toa que eu vim de São Paulo. Aqui, hei de construir o meu paraíso. Meu e dos meus amigos (PUXANDO MEMÓRIA) - Mas... cadê as muié que vosmecê disse que tinha aqui? MEMÓRIA - Ué, Capitão, tá me achando com cara de Cafetina, é? Eu não sou nenhuma Petrolina, não. Eu acho melhor o senhor cuidar das vacas de verdade. Assim, não vai arrumar chifre nem confusão... FIGUEIRA - Vosmecê não tá faltando com minha confiança, hein? MEMÓRIA - Absolutamente, Capitão. É claro que eu não sou chegada num sapato, não, mas o que tem de índia pelada por esses montes claros o senhor não encontra nem na Playboy. FIRMINO - O Capitão permite minha retirada? FIGUEIRA - Vai atrás de muié, homem? FIRMINO - Não, Inhô Mestre. Eu vou é cavar uma privada pra nós evacuar, que esse negócio de fazer no mato é perigoso demais. Dizem que essa região tem muito índio marvado... MEMÓRIA - E tem muito carrapato também. Cuidado! FIGUEIRA - Pois que seja breve, Cabo Firmino. E vê se não se intromete com nenhuma indiazinha montes-clarense por aí, que esse gado aqui é todo do Capitão... FIRMINO - Assim seja, Capitão (SAI DISPARADO, APERTANDO A BARRIGA). FIGUEIRA (TOMANDO UM SUSTO E CAINDO COM AS MÃOS NA BOTINA) - Mas que diabo é isso? MEMÓRIA (PEGANDO UMA FORMIGA) - É a saúva, Capitão. Esta região é rica em formigas. Tá vendo aí? (APONTANDO) Tá tudo infestado. FIGUEIRA (LEVANTANDO-SE, COÇANDO DESESPERADAMENTE AS PERNAS) - Antes de aportar aqui, eu tive em Juramento, um lugar desgraçado pra dar febre. Um tal de impaludismo matou três homens meus e, quando vi que a coisa tava preta, pus os pés na estrada, ganhei esta sesmaria e, agora, aparecem essas desgraçadas pra complicar minha vida... MEMÓRIA - É assim mesmo, Capitão. Como dizia aquele velho deitado: "Pobre, quando acha uma laranja na estrada, ou tá bichada ou tem marimbondo no pé". No seu caso, o pé é que está cheio, mas é de formiga. FIRMINO (VOLTANDO) - Capitão, Capitão, a capelinha já está pronta. MEMÓRIA - Engraçado, o homem saiu pra fazer uma privada e volta dizendo que fez uma capela... FIRMINO - Mandei colocar uma imagem lá no altar, que é pra Nossa Senhora nos proteger. FIGUEIRA (DECLAMANDO) - Que Nossa Senhora me dê saúde e disposição pra fazer deste lugar uma terra tão bonita como o luar do sertão. MEMÓRIA - Mas que bonito, santo homem! O Capitão é tão bom poeta que mereceria uma estátua em praça pública, esculpida pelo grande artista plástico Mário Boy, Cabo Firmino. Mas, Capitão, até quando vosmecê pretende habitar estas paragens? FIGUEIRA - Assunta que eu já percorri esse Brasil de fora afora e até agora não achei um lugar mais gostoso que este aqui não. O terreno tem salitre, as pastagens são naturais... MEMÓRIA - E o gado? FIGUEIRA - O gado pega peso com uma facilidade danada. (ENTUSIASMADO) Eu vou ser o maior criador de gado do Norte de Minas e do Sul da Bahia. Vou ligar o Rio Verde à Bahia, vou fazer uma estrada pra Tranqueira, que é pra dar passagem aos negociantes que vêm pelo São Francisco e (TIRANDO O CHAPÉU), se Deus quiser e Nossa Senhora ajudar, vou fazer disto aqui o maior celeiro de carne pra tudo quanto é siderurgia do país. MEMÓRIA - Siderurgia, Capitão? O senhor não acha que é muito cedo pra pensar nisso não? FIGUEIRA - Vosmecê tá duvidando da minha força de trabalho? Escuta que eu durmo calçado que é pra já levantar com o pé na labuta. MEMÓRIA (DESCONCERTADA) - Claro, claro, Capitão. Só um homem de visão como o senhor conseguiria transformar esse formigueiro da peste num grande centro produtor... FIGUEIRA (IRRITADO) - Vosmecê não pode falar nesses modos não. Ponha mais respeito nas suas palavras, que o Capitão aqui não é bicho de formigueiro não. E se vosmecê tá achando que eu vou levar desaforo pra casa, vosmecê tá muito equivocada. (MEMÓRIA É AGRARRADA PELOS CAPANGAS, ENQUANTO FIGUEIRA FALA) - Pois fique sabendo, também, que eu já matei homem branco, negro escravo, índio sem-vergonha, já acabei com a raça dos Anaiós e... (AVANÇANDO SOBRE MEMÓRIA, COM O TRABUCO ENGATILHADO)... pra dar um tiro numa rameira qualquer não custa nem um piscar de olho. MEMÓRIA - Mas, Capitão... FIGUEIRA - Respeita Montes Claros, fiadaputa!!! MEMÓRIA (TREMENDO DE MEDO) - Pois não, Capitão, pois não. Eu não falei nada, não... Olha, Capitão, eu amo o senhor... FIGUEIRA - Senhor, não, vosmecê! MEMÓRIA - É... é..., eu amo vosmecê, Capitão! E, olha, tem uma coisa que vosmecê não sabe (LIVRANDO-SE DOS CAPANGAS), eu gosto muito de formiga, Capitão. Aliás, eu sou a maior comedora de formigas da região. É bom pras vistas, Cabo Firmino. FIGUEIRA - Arruma a tropa e vãobora que essa descarada é mais maluca do que eu pensava. CABO FIRMINO (SAINDO COM A TROPA E FIGUEIRA) - É, Memória, ocê é doida demais. FIGUEIRA - Vamos lá ver como é que está a capelinha. (SAINDO) - Deixa essa rapariga aí. MEMÓRIA - Peraí, Capitão, peraí. Ô Cabo Firmino, volta aqui, sô! (PARA A PLATÉIA) - Se é assim que eles querem fazer uma cidade, vão entrar na maior fria do mundo. Esperem só pra vocês verem. (ENQUANTO FALA, MIGUEL E JOÃO GONÇALVES FIGUEIRA ENTRAM AO FUNDO. MIGUEL VAI À FRENTE, ABRINDO CAMINHO COM UM FACÃO. JOÃO VEM ATRÁS, COM UM TRABUCO, COM O QUAL DÁ UM TIRO EM MEMÓRIA). MEMÓRIA (CAINDO) - Ai, me acertaram. MIGUEL (ENCOSTANDO-SE AO CADÁVER) - Acho que cometemos um engano, João Gonçalves. É uma mulher e parece que não é inimiga não. JOÃO - Tem importância não, mano. Essa cambada é toda sem-vergonha. Deve ser mulher de um cabra safado que está roubando o gado do Figueira. Será que tá morta? MIGUEL (OUVIDO COLADO AO PEITO DE MEMÓRIA) - Se tá... A alma dela já deve estar pra lá das profundezas do Inferno... JOÃO - Então, vamos embora procurar o Figueira. MEMÓRIA (LEVANTANDO-SE) - Como viram, viver naquela época era mais perigoso do que morar no Feijão Semeado ou no Suvaco da Cobra. Matava-se só pra ver o desgraçado cair. Felizmente, hoje, a poluição, a fome, a Aids e o câncer social substituíram o trabuco e a peixeira. Mas, voltemos ao século dezoito. Esses dois que acabam de passar são o Miguel e o João, irmãos de Antônio Gonçalves Figueira. Na realidade, eram quatro os irmãos do Capitão, todos bafejados pela sorte. Aqui, eles incrementaram suas sesmarias e se tornaram possuidores de grandes fortunas, contribuindo para o povoamento da região. Quando o Capitão, já velho e muito rico, resolveu partir para Santos, a Fazenda dos Montes Claros foi entregue a seus agregados e, posteriormente, ao sargento-mor Manoel Ângelo, primo de Figueira. O Capitão morreu e... CARVALHO (INTERROMPENDO MEMÓRIA) - Bom dia, dona menina. Que Deus a tenha em paz. MEMÓRIA - Ora, pois vamos chegando meu senhor. CARVALHO - Por acaso vosmecê conhece por aqui o sargento Manoel Ângelo? MEMÓRIA - Mas é claro, meu senhor. Não é aquele que, por umas questões políticas, foi deportado pra Angola? CARVALHO - Não exatamente (OLHANDO PARA OS LADOS E SEGREDANDO) - Olha, aquele que foi mandado expulso pra Angola é o André, um dos oito filhos do Capitão Figueira. Eu me refiro ao primo... MEMÓRIA - Ao primo? Pois é justamente sobre ele que eu estava falando quando vosmecê chegou. Por acaso, vosmecê é o... o... CARVALHO - Alferes José Lopes de Carvalho. MEMÓRIA - Mas que prazer! Alferes José Lopes de Carvalho! Mas, o que o traz aqui? CARVALHO - Venho em missão de negócios, com o fito de adquirir a fazenda em questão. MEMÓRIA (PARA A PLATÉIA) - Começou a especulação imobiliária... (VOLTANDO-SE PARA CARVALHO) - Não é pra fazer fuxico não, que eu não sou disso, mas, se eu fosse o senhor, não comprava isso não. Desde que o Capitão rumou para Santos, a fazenda acabou. A sede está em ruínas, os currais foram destruídos, até a capela que Cabo Firmino fez está pelo chão. CARVALHO - É, minha senhora, talvez vosmecê não saiba, mas com a criação do Julgado do Rio Verde, desvinculando esta parte da Capitania da Bahia, essas terras vão valorizar assustadoramente. MEMÓRIA - Bom, já que vosmecê insiste... (SAINDO GRITANDO) - Sargento Manoel Ângelo, ô Sargento Manoel Ângelo! MANOEL (ENTRANDO) - Pronto! MEMÓRIA - Esse herdeiro do orçamento da União aí tá querendo comprar a Fazenda dos Montes Claros. Vê se faz bom negócio e (GESTICULANDO) deixa a metadinha pra mim... MANOEL (TIRANDO O CHAPÉU) - Minhas reverências, forasteiro. CARVALHO - Assim seja, excelência. MANOEL - Então tenho o prazer de estar falando com o Alferes José Lopes de Carvalho? CARVALHO - Isso mesmo, excelência. Vim em missão de negócios... MANOEL - Negócios? Mas é claro. Serve uma cachacinha aí pra nós, Memória. CARVALHO - Bem lembrado. Uma boa cachacinha sempre estimula os bons negócios. MEMÓRIA (VOLTANDO COM DOIS COPOS DE PINGA) - Tá aqui a babadinha. Agora, vocês vão lá pra dentro tratar da negociata. (OS DOIS VÃO PARA O FUNDO DO PALCO, ONDE CONVERSAM BAIXINHO) (MEMÓRIA FALA À PLATÉIA) - E assim, o Alferes José Lopes de Carvalho e o Sargento Manoel Ângelo beberam, conversaram sobre gado, algodão, mulher e, lá pelas tantas, já tontos de tanta fubuia, fecharam a transação. CARVALHO (BÊBADO) - Negócio fechado? MANOEL (APERTANDO A MÃO DE CARVALHO) - Negócio fechado! (SAEM) x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x TERCEIRO QUADRO MEMÓRIA - O Alferes reconstruiu a Fazenda dos Montes Claros e, logo logo, começou a chegar gente de toda a região... (ENTRA UM TOCADOR DE VIOLA, QUE É SEGUIDO POR HOMENS E MULHERES QUE, NO PALCO, DANÇAM ANIMADAMENTE. ENCERRADA A DANÇA, BATEM PALMAS PARA O VIOLEIRO. DO MEIO DO PESSOAL SAI O CORONEL JOSÉ PINHEIRO NEVES) TODOS (PARA O CORONEL) - Já ganhou! Já ganhou! Já ganhou! PINHEIRO (COLOCANDO A MÃO SOBRE A BÍBLIA SUSTENTADA PELO PADRE AMBRÓSIO CALDEIRA BRANT, QUE ACABARA DE ENTRAR) - Eu, Coronel José Pinheiro Neves, fiel às palavras divinas e ao povo de minha terra, sob o testemunho do padre Ambrósio Caldeira Brant, juro cumprir o meu dever, colocando o bem coletivo acima do particular, honrando (TODOS FAZENDO O NOME DO PAI) Pai, Filho e o Espírito Santo... TODOS - Amém! PINHEIRO - ... e prometendo propugnar pelo progresso da Vila de Montes Claros de Formigas! (PALMAS). Como primeiro presidente da Câmara Municipal desta promissora Vila, lutarei - para todo o sempre - no sentido de que seja respeitada a memória do fundador da outrora Passagem de Formigas. Defenderei com brio, ombridade e coragem os ideais pioneiros do Alferes Antônio Gonçalves Figueira... (UMA EXPLOSÃO ASSUSTA TODO MUNDO. RESSURGE ANTÔNIO GONÇALVES FIGUEIRA QUE, COMO FANTASMA, NÃO É VISTO POR NINGUÉM, À EXCEÇÃO DE MEMÓRIA) MEMÓRIA - Gente, gente, um momentinho aí. Cês tão vendo aqui? É o Capitão Antônio Gonçalves Figueira. TODOS (SOLTANDO GARGALHADAS) - Tá louca... É assombração... Que é isso?... Tá de fogo... Cê tá louca, Memória? MEMÓRIA - Mas é verdade! Coronel? PINHEIRO - Pois não. MEMÓRIA - Coronel, eu não estou doida não. O senhor está vendo o Capitão? PINHEIRO - Só se for Capitão Enéas. Doida eu sei se você está não, viu Memória (RINDO), mas eu não estou vendo ninguém com essa divisa, não. (RISOS) MEMÓRIA - Seu padre, seu padre, eu juro pela alma do dr. Hermes de Paula: este é o fundador de Montes Claros. AMBRÓSIO - Você deve ter bebido alguma Viriatinha por aí, Memória. MEMÓRIA - Eu não sou de cachaçada não, seu padre. É o Figueira, sim. Ele está mudo, mas gesticula que tudo isso aqui é dele. AMBRÓSIO - Minha filha, se isso não é bebedeira, só pode ser força do mal. No mínimo, você já viu, também, a mulher de branco de Francisco Sá. Passe lá na igreja que vou dar um jeito de exorcizar você. PINHEIRO - Ô Memória, vamos lá pra casa continuar a solenidade. Eu vou dar uma festa e convido todo mundo pra ir farrear. É perto, ali no Ibituruna. (APLAUSOS) (TODOS SAEM, MENOS MEMÓRIA E FIGUEIRA) MEMÓRIA - Está vendo o que você foi arranjar pra mim, Capitão? Nem o padre acredita na sua reencarnação. (FIGUEIRA GESTICULA QUE NADA PODE FAZER) MEMÓRIA - Vamos lá no boteco do Durães tomar uma pra ver se passa o vexame. (APÓS ATRAVESSAR O PALCO COM FIGUEIRA E CHEGAR AO BOTECO) - Black, ô Black, traz dois venenos aí. BLACK (SEM ENTENDER NADA) - Duas? Não seria só uma, dona? Peraí que vou chamar o Durães. MEMÓRIA - Nunca precisou. Eu explico: é... é... são duas mesmo: uma pra mim e outra pruma amiga minha, companheirona do Mercado, que morreu há muito tempo. BLACK (SERVINDO) - Põe limão? (FIGUEiRA GESTICULA QUE NÃO) MEMÓRIA - Uma com limão e outra sem. BLACK - Meu Deus, o que é isso? O copo está levantando sozinho! (CORRE APAVORADO) ANINHA TROMBA-DÁGUA (NO OUTRO SET) - Cê viu, Roxa? Dizem que tem uma mulher falando sozinha por aí... EDNA - Deve ter parte com o capeta... ANÁLIA - Aqui acontece de tudo, Edna. Dizem que já viram até mula-de-sete cabeças na Rua do Bate-Couro, mulher-de-sete-metros no Morada do Parque e lobisomem no Beco de Zé Coco. ANINHA - Sei não, viu Anália, mas mulher falando sozinha, só pode ser carência de homem. O que que você acha, Tiana? TIANA - Cê tem a língua grande, hein? Não é à toa que te chamam Aninha Tromba D'Água... ANINHA - Mas é verdade, Tiana. Mulher, quando carece de uma (FAZ O GESTO), faz tudo quanto é besteira: fala só, joga no Freitas, vota no Mosquito, urina em pé, bebe pinga com cansação e até deita com Negão da Titia. EDNA - Cruz credo! MEMÓRIA (NO OUTRO SET) - Quer dizer que você veio combater o progresso, né Capitão? (FIGUEIRA GESTICULA QUE SIM). Mas o progresso é bom, Capitão (FIGUEIRA GESTICULA QUE NÃO). Tanto é que vamos brindar a elevação do Arraial das Formigas à Vila de Montes Claros das Formigas (LEVANTA O COPO, MAS SEU GESTO NÃO É SEGUIDO PELO CAPITÃO). Ora, ora, brindemos então a chegada do cônego Antônio Gonçalves Chaves! (OS DOIS LEVANTAM OS COPOS) PINHEIRO (NO OUTRO SET) - A vinda do reverendo só poderá trazer progresso para nossa querida Vila. CÔNEGO (FALANDO AO CORONEL JOSÉ PINHEIRO) - Com a graça de Deus, haveremos de... BLACK (ENTRANDO AFOBADO) - Coronel, Coronel, tem uma mulher lá no Relicário falando sozinha e fazendo mais milagres que Zé Fernandes. Imagine, Coronel, que ela levantou um copo no ar sem levantar as mãos e o copo esvaziou-se de uma vez, sem ter ninguém bebendo. O Durães está vermelhinho de medo. PINHEIRO - Este é um assunto que merece a consideração do nobre vigário. Não é a primeira vez que recebo embaixadas desse tipo. Pode ir embora, Black. Pode deixar que o vigário vai cuidar desse assunto. Agora, precisamos conversar sobre coisas mais sérias. BLACK (AINDA AFLITO) - Mas Coronel, ela está lá... PINHEIRO (DEFINITIVO) - Deus que te acompanhe, meu filho. Pede a bênção ao vigário! BLACK - A bênção, seu padre! CÔNEGO - Deus que te abençoe, meu filho. Siga em paz. PINHEIRO - O padre Ambrósio já começara a cuidar do caso, mas não conseguiu tirar as doiduras da mulher, não. Padre Felipe, um dos maiores líderes do Partido Conservador, é muito distraído. Dorme constantemente, mesmo durante as reuniões festivas. Outro dia, o sacristão pegou ele com o rosto ensaboado, de frente para o espelho, navalha na mão e... dormindo. CÔNEGO (RINDO) - Muito interessante. Mas o Coronel disse que ele é do Partido Conservador? PINHEIRO - Exatamente, excelência. Espero que o vigário tenha simpatia pelo partido do padre Felipe, que é o partido do Coronel aqui também. CÔNEGO - Eu sou muito liberal, Coronel Pinheiro. E pretendo disputar uma vaga na Câmara pelo Partido Liberal, o PL. PINHEIRO (NERVOSO) - Pois não conte com meu apoio, Cônego Antônio Gonçalves Chaves! Nós temos uma tradição que não pode ser jogada por terra. CÔNEGO - O povo é que vai decidir, Coronel! PINHEIRO - O povo deve fazer o que for melhor para o Partido Conservador. E o povo já sabe dos prejuízos causados à coisa pública pelo Partido Liberal e pelos anões do Orçamento, tendo à frente o perigoso e prepotente Coronel Francisco Vaz Mourão. CÔNEGO - Coronel, minha candidatura é irreversível. E espero contar com a compreensão do nobre presidente, pois, nada mais almejo senão o progresso de nossa Vila. PINHEIRO - Pois eu acho que, antes de se preocupar com política, o vigário deveria cuidar de desfazer certos boatos que correm à boca pequena, principalmente no Quarteirão do Povo... ANÁLIA (OUTRO SET) - Esse novo padre, aliás, esse vigário que chegou aí não é de enjeitar rabo de saia não ANINHA - Porra, que cidade é essa que aceita padre amigado com mulher? EDNA - Mulher??? Padre??? ROXA - É, ele se juntou com Maria Florença e, dizem, não é a primeira vez nem será a última... TIANA - Pois eu não vejo nada demais nisso. Errado é se ele não arranjasse um belo par de coxas para esquentar os paramentos... ANINHA (APONTANDO MEMóRIA, QUE GESTICULA COM FIGUEIRA) - Olá, olá, é a doidinha que anda falando sozinha. EDNA - Cruz credo! Vai ver, vai ver quebrou o resguardo... x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x QUARTO QUADRO SOLDADO (ENTRANDO APRESSADO, SEPARANDO QUEM ESTÁ NO PALCO) - Licença, por favor! Vamos abrir espaço! Licença para o julgamento. (ENTRA O ESCRAVO JOAQUIM NAGÔ, QUE VEM SENDO EMPURRADO, AMARRADO PELAS MÃOS, COM O DORSO NU) (UM TAROL ACOMPANHA O CONDENADO) SOLDADO (LENDO UM PERGAMINHO) - Por decisão do Conselho de Acusação, a 25 de agosto do ano passado, com base no libelo acusatório lavrado pelo procurador José da Silva Souto, o réu Joaquim Africano, também chamado Joaquim Nagô, natural da cidade de Nagô, na África, deve ser punido com a pena máxima do artigo cento e noventa e dois, no grau máximo, para exemplo dos outros, já que de outra forma não pode haver segurança para os pais de família. O referido réu, Joaquim Africano, vulgo Joaquim Nagô, assassinou, covarde e traiçoeiramente, com três facadas na goela e uma na boca do estômago, em São José do Gorutuba, o pacato fazendeiro Joaquim Antunes de Oliveira, homem de vida santa e pura, sem inimizades, que nunca levantara a mão contra ninguém. Foi nomeado como curador e defensor do réu o Sr. Salvador Alves da Silva, que pediu dispensa por ter sido insultado de uma grande indigestão na noite anterior. Neste caso, é nomeado para substituí-lo o advogado da acusação, João Evangelista Figueiredo. (ABAIXANDO O PAPEL) - O réu tem alguma declaração a prestar? NAGÔ - Tenho sim! SOLDADO - Pois que o diga! NAGÔ (CHORANDO DESESPERADO) - Eu não matei, senhores. Eu sou inocente... Confessei porque fui tratado a ferro e brasa... Eu nunca tive inimizade com meu senhor Joaquim Antunes... Eu nunca tive inimigos... (GRITANDO) Nagô não é de matar... Nagô é de paz com Deus e com os brancos, com Nossa Senhora e os companheiros de cativeiro... (MAIS ALTO) Eu não matei, juro que não matei... SOLDADO - Com a palavra o representante da Promotoria. PROMOTOR - Esse negro assassino está faltando com a verdade. Todas as testemunhas depuseram que "ouviram dizer" que ele matou o benquisto líder pecuarista Joaquim Antunes de Oliveira, sob o pretexto de ter levado uma foiçada por não dar água aos cavalos do seu senhor, pai e protetor. NAGÔ - Não, não, eu não matei... Juro! Eu sou inocente... SOLDADO - Cala a boca! A defesa tem a palavra! ADVOGADO (SARCÁSTICO) - Nada impede que meu constituinte seja enforcado, para servir de exemplo aos pais de família e mesmo porque a forca da Vila de Formigas ainda não foi inaugurada. Este dia, 30 de maio de 1836, há de ficar na história como o Dia da Justiça! SOLDADO - Traz a corda! (RUFO DE TAMBORES. NAGÔ É ENLAÇADO PELA CORDA) - Seu padre, faz a sua parte. (O PADRE ABENÇOA O ESCRAVO. A CORDA É COLOCADA NO PESCOÇO DE NAGÔ MAS, AO SER ACIONADA, ARREBENTA) CARRASCO - A corda quebrou! TODOS - Milagre! - É mesmo inocente! - Milagre! - É um santo! SOLDADO - Traz uma corda mais grossa. (O CARRASCO VAI BUSCAR) TODOS (GRITANDO) - Queremos clemência! Queremos clemência! Liberdade para Nagô! Liberdade para Nagô! Liberdade para Nagô! Liberdade! Liberdade! SOLDADO - Silêncio!!! (NAGÔ É NOVAMENTE ENLAÇADO E, DESTA VEZ, ENFORCADO. ESTREBUCHA, LÍNGUA DE FORA, E É CARREGADO PELOS ATORES, QUE MURMURAM UM CANTO SOFRIDO, EM PROCISSÃO) MEMÓRIA (MOSTRANDO UMA MULHER QUE VEM REBOLANDO) - Olha aí, Capitão, olha aí. É a Aninha Tromba D'Água. (FIGUEIRA AVANÇA EM DIREÇÃO À MULHER) - Peraí, Capitão, peraí. Vamos devagar. Olá, Aninha, como é que vai? (FIGUEIRA DÁ UM BELISCÃO NA BUNDA DE ANINHA) ANINHA - Sem vergonha! (DÁ UM TAPA NO ESPAÇO) - Vá beliscar sua mãe! (FIGUEIRA CAI SOB O IMPACTO DO TAPA E, PARA SURPRESA DE MEMÓRIA, RECUPERA A VOZ) FIGUEIRA - Ai!!! MEMÓRIA (PULANDO DE ALEGRIA) - Capitão, o senhor falou, Capitão! Milagre, milagre, o Capitão Figueira falou! (MAIS VIBRANTE) - Viva a emancipação! Viva a cidade de Montes Claros! FIGUEIRA (DE QUATRO PÉS) - Cidade? Quer dizer que a formiga já pode andar? sozinha? MEMÓRIA - Mas é claro, Capitão! A partir de hoje, 3 de julho de 1857, a formiga perde definitivamente sua virgindade... (MEMÓRIA TREPA AS COSTAS DE FIGUEIRA, QUE AVANÇA PARA A QUARTA PAREDE DE QUATRO PÉS) CÔNEGO (NO OUTRO SET) - E neste momento solene, em que nossa Vila adquire sua emancipação de fato e de direito, não poderíamos deixar de homenagear d. Eva Bárbara Teixeira de Carvalho, que tanto labutou pela criação da portentosa Banda Euterpe Montes-clarense! (ENTRA UMA BANDINHA, QUE USA APENAS AS MÃOS PARA FAZER SUAS EVOLUÇÕES, COMO SE USASSE INSTRUMENTOS DE VERDADE) x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x QUINTO QUADRO ROSENDO DA MUMBUCA (EM CENA, COM UMA GARRAFA DE CACHAÇA NA MÃO, CAMBALEANDO, TROPEÇA NUMA PEDRA) - Ai, ai, ai... que diacho é isso? (APANHANDO A PEDRA) - Quase tira o tampo do meu dedão fora. Ai, ai, ai... é a terceira topada que levo hoje (EXAMINANDO A PEDRA) - Essa bicha tá muito pesada, instrupicou meu dedão, mas eu não vou jogar ela fora não. Vou é levar pro seu Ogusto Orives dar uma olhada... (SAI, AINDA MAIS CAMBALEANTE) FIGUEIRA (NO OUTRO SET) - Mas será que vai dar certo? MEMÓRIA - Ora se vai, Capitão. O senhor não voltou a falar com um simples tapa que levou da Aninha Tromba D'Água? FIGUEIRA - Voltei, sim, mas isso não tem nada a ver com esse seu plano maluco. MEMÓRIA - Deixa comigo, Capitão. O senhor não vai falar nada. Eu apenas vou apresentá-lo, dizer que o senhor veio da Bulgária, que estudou para ser médico, mas preferiu dedicar-se às artes plásticas, que... FIGUEIRA - Mas, e o nome? Cumé qui vai ser meu nome? MEMÓRIA - O nome? Bem, o nome... eu poderia dizer que o senhor se chama Godofredo Guedes, Vanderlino Arruda, Georgino Júnior, Samuel, Raimundo Colares, Biola, Walmir Alexandre, Yara Tupinambá, Márcia Prates, Darlan Rego, Argentino Sidônio, Carlinhos Muniz... mas aí aparece outro pintor com esse nome e as coisas se complicam. É melhor inventar um nome bem diferente, que pai nenhum teria coragem de botar no filho. Que tal Constrantof Cristin? FIGUEIRA - Não, esse é complicado demais. Nem eu vou conseguir falar... MEMÓRIA - Pois é assim que é bom, Capitão. Com um nome difícil como este, o senhor vai fazer o maior sucesso. Ah, ah, ah, eu fico rindo só de pensar na cara do Marciano Fogueteiro, na Novena de Nossa Senhora, quando anunciar (CONTORCENDO OS LÁBIOS): e agora vamos soltar uma salva de fogos em homenagem ao maior artista do pincel: Cons-tran-to-f Cris-tin! (RI) FIGUEIRA - E se eles descobrirem que eu não sei pintar nem um rabo de vaca? MEMÓRIA - Mas quem disse que o senhor vai pintar rabo de vaca, santo homem? Afinal, o senhor vem trazendo da Bulgária um novo estilo de pintura, desconhecido de todo este país. Basta rabiscar algumas coisa na tela e, com sua enorme capacidade de percepção, com seu nunca discutido intelectualismo, com o sentimento que lhe brota puro da alma, estará emoldurada a mais bela criação de todos os tempos. FIGUEIRA - Mas cumé que vou pintar, se nem tenho pincel? MEMÓRIA (CORRENDO PARA BUSCAR ALGUMA COISA) - Não seja por isto, Constrantof. Está aqui todo o apetrecho que vai transformá-lo no mais célebre pintor da história de Montes Claros. ROSENDO (CHEGANDO À OURIVESARIA DE SEU OGUSTO) - Seu Ogusto, seu Ogusto, vigia que pedra é esta? OGUSTO (PEGANDO A PEDRA E FAZENDO UMA LIGEIRA INSPEÇÃO) - Rosendo, Rosendo, isto é ouro!!! E ouro do bom, criatura! Deve pesar umas 25 onças... Vale mais de um conto de réis. Rosendo, onde foi que você tirou ela? ROSENO (ASSUSTADO) - Como? Ouro? Ouro mesmo? Olha, seu Ogusto, pela alma de Reco, o saudoso Ricardo Brasil, que continua presente no coração de nossa juventude, eu juro que não foi roubada não. OGUSTO - Mas quem foi que disse isso, homem? Eu quero saber onde tem que é pra eu ir buscar umas pra mim... ROSENDO - Sei não, seu Ogusto, sei não... Aliás, sei sim: foi por acauso. Eu ia andando pela Vargem do Barreiro quando trupiquei nela. Até pensei jogar a disgramada fora... OGUSTO (GRITANDO) - Ouro! Ouro! Venham ver! (TODOS ENTRAM CORRENDO, TROMBANDO UNS CONTRA OS OUTROS) Rosendo da Mumbuca acaba de descobrir a maior riqueza do mundo! É ouro, minha gente. Dona Genoveva, olha que maravilha! GENOVEVA (PEGANDO A PEDRA) - Que maravilha, meu Deus! Que tesouro! Preciso entrar em contato com o Paulo César. Ah, eu daria tudo para tê-la pendurada no pescoço... ROSENDO - A senhora tá falando sério, dona Genoveva? GENOVEVA - Pois não é, santo homem! Você, por acaso, não pretende negociá-la? ROSENDO - Quanto é que a senhora dá nela? GENOVEVA - Assim, agora? Hum, doi 450 réis! ROSENDO - Pois é da senhora. OGUSTO - Cê tá louco, Rosendo? Ela vale muito mais... ROSENDO - Mas eu não quero esse tanto de dinheiro não (DANDO UMA BICADA NA GARRAFA). Olha, seu Ogusto, com 450 réis eu bebo seis meses. Com um conto, eu bebo um ano e tanto... E aí, né, não sobra tempo pra mexer com as nega... MEMÓRIA - Seu Augusto, é melhor deixar pra lá. É um bobo. Tudo pra beber cachaça. É assim mesmo: quem não tá acostumado com mel, quando come, lambuza. JORNALEIRO (TRAZENDO JORNAIS SOB O BRAÇO) - Extra! Extra! Edição extra de A PROVÍNCIA, um jornal de segunda! Descoberta mina de ouro em Montes Claros! Minas e mais minas de ouro! Grande riqueza espera os exploradores! (OS PERSONAGENS AVANÇAM SOBRE ELE, CADA UM PEGANDO UM EXEMPLAR. UM DELES COCHICHA AO OUVIDO DE OUTRO E OS DOIS AVANÇAM ALGUNS PASSOS, SORRATEIRAMENTE, E LOGO EMPREENDEM DESABALADA CARREIRA. TODO MUNDO SAI ATRÁS, LEVANDO O JORNALEIRO DE ROLDÃO. FIGUEIRA TENTA IR TAMBÉM, MAS É PUXADO POR MEMÓRIA) MEMÓRIA - Calma, Capitão, calma! Deixa a corrida do ouro pra essa gente gananciosa. Diz a história que logo logo eles estarão de volta, com uma mão na frente e outra atrás. FIGUEIRA - Mas não tem ouro mesmo, não? MEMÓRIA - Tem nada, Capitão, aliás, Constrantof Cristin. Tem nada. É uma ou outra pepita e nada mais. Dizem que vêm mais de mil garimpeiros atrás do ouro de Montes Claros, que até na Rua do Pedregulho tem ouro, mas tudo não passa de sensacionalismo. A esta altura, a rádio Terra já deve estar anunciando que até no Palácio do Bispo tem ouro... FIGUEIRA - Pois se for mentira, eu te esguelo, tá ouvindo? Afinal, essas terras são minhas e eu não aceito ser passado para trás, não. MEMÓRIA - O Capitão já conhece os motéis de Montes Claros? FIGUEIRA - Que diabo é isso, mulher? MEMÓRIA - É uma espécie de hotel, Capitão, que é usado apenas para ... (COCHICHA AO SEU OUVIDO) FIGUEIRA - Cê tá louca? Então já não existe mais a zona do Cecé, a Rua Lafaiete, a Rua do Marimbondo... MEMÓRIA - Claro que não, Capitão. O progresso acabou com aquelas luzinhas vermelhas na porta, como o 49, lembra-se? Agora são só os motéis. E olhe que já são mais de dez. Vai ver o Capitão não tá dando mais no couro? FIGUEIRA - Me respeita, mulher! Eu estou velho mas não estou capado não... MEMÓRIA (RINDO) - Não diga que o Capitão tá tomando chá de catuaba... FIGUEIRA - Eu nem sei do que se trata. MEMÓRIA - Fazendo-se de besta, hein Capitão? Catuaba é um afrodisíaco usado pelos homens nas famosas garrafadas. Olha, o Urbino Viana sabe de uma fórmula que tem êxito seguro, garantido, batuta mesmo. Basta macerar o conteúdo durante uns dez dias e tomar um cálice em cada refeição. FIGUEIRA (TOSSINDO SEM JEITO) - Ainda tem buriti por aqui? MEMÓRIA - Ora, Capitão. Aqui tem quase tudo que o senhor deixou. (RECITANDO) Tem pequi, panan, jabuticaba e buriti,/Araçá, ananais, cagaita e maracujá,/Cajá, pitomba, caju e gravatá,/Manga, mangaba, pinha, jatobá e banana,/Melão, pitanga, tamarino e mamão./Se o Capitão me permite,/Eu posso ainda citar/Que tem até pé de bucha,/Que é pra banho a gente tomar./Tem também erva-cidreira,/Mas, água que é bom,/A gente tem que buscar no Rio Vieira. FIGUEIRA - É dessa água que o povo bebe? MEMÓRIA - Tem água de cisterna também, Capitão. Tem cada cisterna que dá água gostosa de se beber. Outras, às vezes situadas na mesma rua, dão uma água insalubre que dá até vontade de vomitar quando bate no estômago. FIGUEIRA (OLHANDO UMA MULHER QUE VEM REBOLANDO, COM UMA MARMITA NA MÃO E UM VESTIDO QUE VAI ATÉ OS CALCANHARES, SEGUIDA POR DOIS HOMEMS) - Quem é aquela? MEMÓRIA - É dona Miloca, mulher do relojeiro Cândido Mena Barreto, que foi trazido lá de Curvelo especialmente pra montar o relógio doado por dona Carlota dos Anjos para o mercado. (A MULHER SOME NOS BASTIDORES E OS HOMENS A SEGUEM, SEMPRE ESFREGANDO AS MÃOS) FIGUEIRA - E aqueles homens? MEMÓRIA - Todo dia eles saem atrás de dona Miloca, pra ver as partes íntimas dela. Assim que ela trepa a escada pra levar a comida do marido, que trabalha dia e noite, eles ficam ali, assuntando as coisas da mulher. FIGUEIRA - Mas esse não é aquele mercado que eu derrubei? MEMÓRIA - O senhor só derrubou um pedaço, Capitão. Naquela época, ele estava sendo construído por ordens do Honorato Alves. Hoje, quem comanda o município é o major Simeão Ribeiro dos Santos. Se ele soubesse de suas artes contra o progresso, já teria mandado prender o Capitão... FIGUEIRA - É, mas teve um comerciante, o Sílvio Teixeira, que gostou de minha malineza. Quando o mercado principiou cair, ele gritou: "Que formidável coisa boa!" MEMÓRIA - Mas o Sílvio só gostou porque ele é do Partido de Baixo, o partido de Camilo Prates, e o presidente da Câmara é o Honorato Alves, do Partido de Cima. FIGUEIRA - Quer dizer que, sem querer, eu cometi um ato político? MEMÓRIA - Exatamente, Capitão. De repente, o senhor virou um camilista. FIGUEIRA - O Camilo é do Partido Liberal, não é? MEMÓRIA - É, sim. FIGUEIRA - E o Gonçalves Chaves? MEMÓRIA - O filho do padre? FIGUEIRA - Exato. MEMÓRIA - Gonçalves Chaves é uma das maiores capacidades intelectuais e políticas de Montes Claros. Sua capacidade maior não é partidária, mas comunitária. Não sei se o Capitão sabe, mas ele foi até presidente de Santa Catarina. Quer dizer, é a atencipação histórica de Francelino Pereira, o piauense que vai governar Minas Gerais. Só que, no caso, um mineiro de Montes Claros é que foi dirigir outro Estado. FIGUEIRA - Mas como é que esse tanto de candidatos, fora os pára-quedistas, arranja votos aqui? MEMÓRIA - Ora, Capitão, hoje nós somos mais de dois mil eleitores. Montes Claros cresceu muito. Incluindo os escravos, a cidade tem mais de 4 mil habitantes. Juntando todo o município, são mais de 25 mil. Por isso que eu falo: esse negócio de o Capitão lutar contra o progresso não vai adiantar nada. FIGUEIRA (APONTANDO D. MILOCA, QUE ENTRA PELO MESMO LUGAR, AGORA VESTIDA COM UMA CALÇA COMPRIDA) - Olá, olá, ela mudou de roupa. MEMÓRIA - Viche, Capitão, vãobora que as madames da cidade estão chegando (ENTRAM CINCO MULHERES, COM AR DE DESPREZO, OBSERVANDO D. MILOCA, QUE CONTINUA INDIFERENTE) x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x SEXTO QUADRO MADAME 1 - Que pouca vergonha! MADAME 2 - Vê se pode? Uma sirigaita vem lá do Inferno só pra provocar nossos maridos... MADAME 3 - Será que ela está pensando que isso aqui é Paris, onde se cometem as maiores sem-vergonhices do mundo? Será que ela pensa que é a Cicciolina ou a modelo Lílian Ramos? MADAME 4 - É, o jeito é nós fazermos um abaixo-assinado pra tirar ela da cidade. MADAME 5 - Onde já se viu mulher vestir calça de homem em público, apenas para chamar a atenção? MADAME 2 - Nós precisamos falar com essa prostituta. TODAS: - Isto mesmo! MADAME 4 - D. Miloca, faça o favor! D. MILOCA (COMO SE NÃO ESTIVESSE ACONTECENDO NADA) - Às ordens. MADAME 1 - É pra dizer pra senhora que é uma indesculpável falta de compostura a senhora andar por aí com esses trajes indecentes! D. MILOCA - Mas, eu... MADAME 2 - É uma falta de decoro. MADAME 3 - Um desafio à moralidade. MADAME 4 - Um achincalhe às mães de família. MADAME 5 - Uma inconveniente exposição de formas. D. MILOCA - Eu acho melhor as senhoras cuidarem de seus maridos, que todo dia vão olhar minhas pernas quando eu subo a escada do mercado. MADAME 1 - Que atrevida! MADAME 2 - Ainda não tem vergonha de dizer que os homens é que estão atrás dela... D. MILOCA - Mas eu tenho que levar comida pro meu marido... MADAME 3 - Pois leve comida para seu marido, mas não se atreva a servir de sobremesa para os nossos homens. MENA BARRETO (ENTRANDO PARA APAZIGUAR) - Calma, minhas senhoras. Já está tudo resolvido. A partir de hoje, minha querida esposa continuará trajando indumentária feminina e não mais precisará subir a escada do mercado. Todos os dias eu vou descer para vir comer sua comidinha cá embaixo, não é meu amor? JOÃO DA MATA (ENTRANDO COM UMA CAIXA PARA ANUNCIAR O FILME DO DIA) - Cinema! Cinema! Hoje tem cinema! (TODOS OS ATORES CERCAM O RAPAZ, QUE CONTINUA ANUNCIANDO) - Não percam! Hoje não está sopa, não... CURIOSO - Qual é o filme que tá passando? JOÃO DA MATA - O filme? Ah, o filme. Hoje, o grande filme "Doce Problema", estrelando Tom Mix contra Rolô... Vamos todos ao cinema! Tom Mix contra Rolô... CURIOSO - E os ingressos? JOÃO DA MATA - Ingressos? É aqui mesmo (CONDUZINDO OS PERSONAGENS PARA UM CANTO DO PALCO, ONDE O BILHETEIRO DISTRIBUI OS INGRESSOS. TODOS VÃO PEGANDO O PAPELZINHO E SE ASSENTANDO NO PALCO, QUE ENTÃO SE TRANSFORMA NUMA SALA DE PROJEÇÃO. TODOS DE FRENTE PARA A PLATÉIA. COMEÇA A GRITARIA) - É pra hoje! - Ô, seu Ducho, vê se arranha esse violino direito, sô! - Ô Jacó! - Calma, gente, calma. O Dr. João Alves ainda não chegou. - Mas que diabo! O filme só começa quando o presidente chega? - Fiu, fiu... - Ô Tonico de Naná, sua clarineta não tá com nada! - Cadê o violão do Gaspar Durães? MEMÓRIA - Atenção, senhoras e senhores! O Dr. João Alves, digníssimo presidente da CÂmara e Agente Executivo, acaba de chegar. Vai começar o espetáculo! (Dr. JOÃO ALVES ASSENTA-SE, DANDO ORDEM PARA O INÍCIO DA SESSÃO. AS LUZES SÃO TODAS APAGADAS. O FOCO DE UM PROJETOR, MANIPULADO POR MEMÓRIA, É PROJETADO CONTRA A PLATÉIA. A GRITARIA CONTINUA) - Aí, Tom Mix, dá um couro nesse bandido! - Epa, sai daí Sinval Amorim! - Nossa, que violência! - Sai da frente, Tone Abreu! - Ô Afrânio, tá pensando que aqui é a Pilangos? - Pau nele, Rolô! - Cuidado, Paulo Henrique, senão eles te matam. MEMÓRIA (INTERROMPENDO OUTRA VEZ, PARA DESAGRADO DA ASSISTÊNCIA) - Senhoras e senhores... - Ih, a fita quebrou... MEMÓRIA - Não, não, o Jacó já foi embora. É o seguinte: a Empresa Leopoldo Laborne pede desculpas à distinta platéia, mas vê-se forçada a interromper o espetáculo porque, neste momento, coroa-se de êxito o empreendimento do Coronel Francisco Ribeiro dos Santos. Vinda da Cachoeira do Cedro, acaba de chegar a Montes Claros a luz elétrica que nos faltava (ACENDEM-SE TODAS AS LUZES, INCLUSIVE DA PLATÉIA. OS ATORES SE LEVANTAM EXTASIADOS) - Luz!? Luz!? Luz!? - Agora temos luz! Agora temos luz! Agora temos luz! - Viva o progresso! - Viva! - Viva o Coronel Francisco! - Viva! - Viva a usina Santa Marta! - Viva! - Viva a Cemig! - Viva! TODOS (EM CORO) - Abaixo o lampião, abaixo o lampião, abaixo o lampião! (ENTRA EM CENA A BANDA OPERÁRIA, FAZENDO MÍMICA, SEM INSTRUMENTOS) (AS LUZES DA PLATÉIA SÃO DESLIGADAS) TIÃO BESTA (DIRIGINDO-SE A DR. JOÃO ALVES) - Dr. João, dr. João, a Banda Operária está fazendo uma passeata e ameaça passar em frente à casa do Camilo Prates. JOÃO ALVES - Já saiu o resultado, Tião Besta? TIÃO BESTA - Já sim. O último voto acaba de ser apurado. O Camilo Prates foi eleito deputado federal (VAIAS). Tem mais: o Honorato Alves ganhou com maior margem de votos (APLAUSOS) JOÃO ALVES (DISCURSANDO) - Mais uma vez está confirmado o predomínio do Partido de Cima sobre o Partido de Baixo. Mais uma vez os Cascudos dão uma lição nos Chimangos. Está salva a República, está salva a honra do Partido Conservador. Saudemos a vitória do dr. Honorato José Alves! Viva o dr. Honorato! TODOS - Viva! CARLOS (GRITANDO DO FUNDO DO PALCO) - Vocês querem parar com essa baderna na frente da minha casa? TIÃO BESTA - É o Carlos, filho do dr. Camilo Prates. MULHER 1 - Oxente, ancê pensa que é o dono da cidade? CARLOS - Peço aos senhores que não perturbem o sossego do nosso lar. Meu pai foi eleito também e nem por isso colocou a Banda Euterpe na rua. JOÃO ALVES - Cada um comemora à sua maneira... MULHER 2 - Quem pode, pode, quem não pode, sacode... CARLOS - Peço que não insultem o meu pai! MULHER 3 - Viva o dr. Honorato! TODOS - Viva! CARLOS - Ou vocês param com isso ou vão levar chumbo na cara! (APROXIMA-SE NERVOSO, SOB VAIAS. A FESTA CONTINUA) - Viva o dr. Honorato! - Viva! - Morra o Camilo Prates! - Morra! - Viva os Pelados! - Viva! - Morra os Estrepes! - Morra! - Viva os Cascudos! - Viva! - Morra os Chamangos! - Morra! (TIROS RESSOAM NO MEIO DA ALGAZARRA, VINDOS DOS BASTIDORES) (QUATRO PESSOAS MORREM E SETE FICAM FERIDAS. HÁ UM LIGEIRO BLACK-OUT. TODOS SAEM) x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x SÉTIMO QUADRO MEMÓRIA (LENDO UM JORNAL, AO LADO DE FIGUEIRA) - Figueira, olha o que está dizendo a Gazeta do Norte: quatro pessoas morreram e sete ficaram feridas num tiroteio entre os Chimangos e os Cascudos. Engraçado é que tanto o Honorato Alves como o Camilo Prates mandaram telegramas ao governador Silviano Brandão pedindo proteção... FIGUEIRA - E ele vai mandar? MEMÓRIA - Vai nada... No fundo, isso não passa de mais uma futrica política. O Camilo é muito vivo: tem a astúcia do felino, a treita da lebre e a coragem de um tamanduá em mato fino. O Honorato não dá por menos: é capaz de dar nó em pingo d'água e ainda amarrar as pontas... Quer dizer, no fim, é tudo farinha do mesmo saco. FIGUEIRA - O que diz mais aí? MEMÓRIA (MOSTRANDO NO JORNAL) - Olha, essa é boa. Vai chegar a Montes Claros... CARLOS CÂMARA (ENTRANDO ESPAVORIDO) - Gente, gente, vãobora pra casa! Não convém vocês ficaram aqui, não. Tá vindo um monstro aí que eu nunca vi na vida. Vem vindo perto do Grupo Gonçalves Chaves, nesta direção. É uma coisa horrorosa! Vem rodando sozinho e bufando feito boi brabo. Vãobora, pessoal! Vãobora que a coisa não é de brincadeira, não. FIGUEIRA - Carlos Câmara, o que fez tanto assombro em você assim? CARLOS CÂMARA - É um bicho que anda sozinho, pra frente e pra trás, sem precisar de nenhuma junta de boi pra puxar. MEMÓRIA (RINDO) - Que bicho que nada, seu boboca. É o caminhão que o Capitão José Augusto de Castro comprou pra puxar material para a construção do prédio da cadeia. FIGUEIRA - É o progresso? MEMÓRIA - Claro, Capitão! É o progresso que continua chegando a Montes Claros, com seus efeitos multiplicadores e suas variadas formas de conforto. O caminhão é apenas o começo. Daqui a uns tempos, esta cidade vai ter mais carros que carreata de Jairo Ataíde. FIGUEIRA - Pois eu não aceito isso não. Se chegar aqui, eu dou um tiro nele... CARLOS CÂMARA - É o fim do mundo! MEMÓRIA - Olha, Capitão, o senhor já derrubou um pedaço do mercado, já pôs fogo na fábrica do Cedro, já espalhou a peste bubônica, mas isso eu não admito não. Montes Claros, hoje, é bem diferente daquele formigueiro que o senhor deixou aqui. FIGUEIRA - Mas isto é um insulto aos meus ideais. MEMÓRIA - Montes Claros já não lhe pertence, Capitão Figueira. Montes Claros é do povo. E o povo quer o progresso! FIGUEIRA - Ih, você está falando igualzinho a Wílson Cunha e Humberto Souto. CARLOS CÂMARA (APONTANDO A RÉPLICA DO CAMINHÃO FORD QUE VEM CHEGANDO, ACOMPANHADA POR UMA MULTIDÃO) - Olha, olha, lá vem o monstro! (O PERSONAGEM QUE REPRESENTA UM CAMINHÃO VEM BVZINANDO E DÁ UMA FREADA, PARA DELÍRIO DOS QUE O ACOMPANHAM EM FILA) JOSÉ AUGUSTO DE CASTRO - Agora, Montes Claros entra definitivamente na era do automóvel. Este caminhão, com capacidade para 1.500 quilos, custou quase quatro contos de réis, mas vai acelerar demasiadamente a construção do prédio da cadeia e do fórum. Com ele, Montes Claros se lança à frente das principais cidades mineiras, inclusive nossa velha rival Teófilo Otoni (PALMAS). FIGUEIRA (APONTANDO UM REVÓLVER PARA O CAMINHÃO) - Essa desgraça vai ser a perdição da família montes-clarense. Nossos filhos rolarão mortos sob suas rodas. Milhares de feridos serão levados aos hospitais, de onde sairão inválidos. Seus bancos serão transformados em sedutores de moças donzelas. Sua buzina explodirá os tímpanos de minha gente e aumentará a angústia coletiva. Sua fumaça poluirá a doce atmosfera do sertão feito puro. (É AGARRADO E LEVADO PARA OS BASTIDORES) J. A. CASTRO - É um louco, mais um Requeijão de Salinas que aporta em nossa cidade. Agora, o escritor Ciro dos Anjos vai fazer uma vaquinha para o passeio de ida e volta aos Paus Pretos (CIRO SAI COLHENDO O DINHEIRO DE CADA UM. EM SEGUIDA, O CAMINHÃO SAI, FORMANDO ATRÁS DELE UMA FILA MUITO ALEGRE E ENTUSIASMADA) TODOS - Viva o caminhão, viva o caminhão, viva o caminhão... x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x OITAVO QUADRO TIBURTINA (ENTRANDO EM CENA, AO LADO DE D. DURUTA) - Que vestido bonito, Duruta! DURUTA - Não é muito lorde, não, Tiburtina, mas eu mandei trazer do Rio de Janeiro. TIBURTINA - Mas pra que tanta chiqueza, mulher? Se nós temos aqui costureiras como a Nazinha, Deolinda, Neide Lima, Suzana, Oneide Torres... Não havia necessidade de fazer fora, não. Vai ver, ficou um absurdo. DURUTA - Ficou em mais de dois contos de réis, mas não é todo dia que a gente tem oportunidade de participar de uma festa como a de hoje. A inauguração do trem-de-ferro vai livrar Montes Claros do atraso. Festa mais luxuosa só mesmo a das Personalidades do Ano. TIBURTINA - Pois o meu é todo de cetim e ficou muito mais barato. Quem fez foi dona Maria, mulher do Novaisinho e mãe do Perereca. DURUTA - Sabe duma coisa, Tiburtina? Para a festa de hoje, tudo veio de fora. Os doces, que d. Alda faz tão bem, vieram de Belo Horizonte. Desprezaram a rica culinária de Duca e Nazaré e a comida chinesa da Fatinha e foram buscar uns pratos com nomes arrevezados para o banquete. Daqui mesmo só tem a Banda Euterpe. Até os fogos, que poderiam ser comprados em Mirabela, vieram de Santo Antônio do Monte. (ENQUANTO FALA, OUTROS PERSONAGENS VÃO CHEGANDO, VESTIDOS A RIGOR, OUTROS COM CHAPÉUS E GUARDA-CHUVAS) TIBURTINA - Você foi à festa na casa de Sebastião Sabiá? DURUTA - Tava uma cachaçada dos capeta. Lá pelas tantas fizeram uma seresta, onde deram vivas ao Ministro Francisco Sá, a Augusto Catoni, ao dr. Demósthenes Rocket e até apelidaram Bocaiúva de Quilômetro 1.045... TIBURTINA - Vai ver esqueceram de homenagear os engenheiros... DURUTA - Ah, tinha me esquecido. O Coronel Antônio dos Anjos mandou fazer três escudos com letras de ouro para colocar na estação: um com o nome de Francisco Sá e os outros dois em homenagem aos engenheiros Pires e Albuquerque e Ajax Rabelo. MANÉ 400 (ENTRANDO EM CENA E APONTANDO PARA O HORIZONTE) - Olá, olá, o Ministro Francisco Sá vem vindo a pé! (TODOS OLHAM NA DIREÇÃO APONTADA, ONDE NÃO VÊEM NADA. MANÉ BATE COM O INDICADOR NO GOGÓ E DÁ UMA GARGALHADA ESTRIDENTE) - Olalaica, olalaica... COORDENADOR (ENTRANDO NO OUTRO LADO, JUNTAMENTE COM A CARAVANA DO MINISTRO) - Senhoras e senhores, temos o prazer de receber o Ministro da Viação do Governo Arthur da Silva Bernardes, o grande amigo de Montes Claros, dr. Francisco Sá (PALMAS. O MINISTRO SAI DA RÉPLICA DE UM TREM-DE-FERRO, FORMADA POR TRÊS OU QUATRO ATORES. O COORDENADOR DA FESTA PROSSEGUE). E após a saudação ao Ministro, feita tão brilhantemente pelo ilustre deputado Camilo Prates, vamos ouvir Polidoro Figueiredo, autor de belo poema em homenagem ao maior dia de Montes Claros. (PALMAS E VIVAS) POLIDORO (DECLAMANDO): - "Agora, sim, terra sertaneja, Nova seiva de vida já poreja, E da locomotiva o grito acode, Do passado o torpor bate e sacode. (PALMAS) Vai aumentar a farta sementeira; Os rebanhos do campo e da lareira; As chamas do conforto e da alegria. (MAIS APLAUSOS) Há no espaço mais notas de harmonia e novas esperanças. O centro está marcado - é Montes Claros, A princesa, o milagre do sertão, Como o chamou dos filhos seus preclaros, O mais ilustre - de alma e coração". TODOS - Muito bem! Viva! Salve Polidoro! Salve a Central do Brasil! COORDENADOR - Chegou o grande momento. Ouçamos, no silêncio contido da alma sertaneja, aquele que foi o maior benfeitor de Montes Claros. Com a palavra nosso melhor amigo, o Ministro Francisco Sá! (PALMAS) FRANCISCO SÁ - "Existem prazeres na vida que, de tão intensos, constumam ser dolorosos..." TODOS - Ai! FRANCISCO SÁ - "A guerra está vencida. Hoje, ainda de longe, eu senti a alma da gente montes-clarense ao avistar, do comboio que invade o sertão, a pequenina igreja dos Morrinhos, atalaia avançada dos povos cristãos (PALMAS). Montes Claros, coração robusto do sertão mineiro, eu mesmo não te vira e já te amava, em teu nome, em tua tradição, em teus homens, em teu destino"... MANÉ 400 - Será que ele é cego? FRANCISCO SÁ (FINGINDO QUE NÃO OUVIU) - "Eu não havia recebido ainda, como ontem e hoje recebi, a impressão de tua beleza, esplendor destes dias de ouro, com que me acolhe o encanto de tua hospitalidade, e já minh'alma estava presa à tua fortuna. Deste mesmo céu, que é a glória de teus dias e a doçura melancólica de tuas noites, desceram as primeiras bênçãos, que me iluminaram o caminho da vida e que, espero em Deus, hão de ser, através das sombras da reminiscência final, a derradeira claridade de meus olhos." (A MULTIDÃO SE ALVOROÇA. ALGUNS CHORAM DE EMOÇÃO, OUTROS BATEM PALMAS. O MINISTRO É ABRAÇADO E BEIJADO E, FINALMENTE, CARREGADO NOS OMBROS) COORDENADOR - Vamos agora à festa do lastro. Todos estão convidados para o banquete. Vamos todos ao banquete! x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x NONO QUADRO TIBURTINA (EM CENA COM JOÃO ALVES. ELA FAZ TRICÔ E SEU MARIDO, MÉDICO, EXAMINA UM PACIENTE) - Meu bem, não tô gostando nada desse negócio de você assumir a chefia da Aliança Liberal. JOÃO ALVES (EXAMINANDO O PACIENTE) - Mas, Tiburtina, nós temos que defender os ideais e a fibra da gente mineira. Você acha que é correto o Washington Luís querer impor um fiadamãe lá de São Paulo como seu sucessor na presidência da República? Se fosse pelo menos a Erundina... E que dizer, então, desse tal de Melo Viana pra governar nosso Estado? TIBURTINA - Claro que não, João Alves. Eu sei que suas intenções são boas, mas já estão dizendo por aí que você soltou o folheto só para impedir uma grande recepção a Melo Viana... JOÃO ALVES - Deixa eles falarem... O importante é minha consciência (DESPEDINDO O PACIENTE E ENTREGANDO-LHE UM FOLHETO). E se mandei soltar o boletim é justamente pra evitar que os ânimos se exaltem no 6 de Fevereiro. TIBURTINA - Mas você acha que os conservadores vão ficar parados, de braços cruzados, esperando a banda passar? Assunta que... URSINA (ENTRANDO) - Bastarde seu João, bastarde cumadre Tributina. TIBURTINA - Boa tarde! JOÃO ALVES - Mas que prazer em recebê-la, Siá Ursina. A senhora veio consultar? URSINA - Eu vim aqui ontá ancê, fazê umas queixa qui o Ivan Guedes e o Paixão mandou... Inhantes, tive na farmaça de Maro Versiani, mas também ele me aconseiou percurá o doutore Santo ou o sinhô... JOÃO ALVES - Qual é o mal da senhora? URSINA - Eu nem sei cumé qui tô viva. Sofro da mãe do corpo, intalo e dore de pontada. Tenho também fogo nas urina. Me parece qui eu tem é uma inscanicença ricuída, com uma caminhação cumpricada e uma dore de istambo véi (ARROTA). Arroto choco. Num falano com pouco insino, cum quarqué dicumezim eu fico uma sumana sem ir no mato (COSPE). Tem dia qui manheço numa nevragia insepultável: num posso vê labôro qui dou acesso... JoÃO ALVES - Já entendi, Siá Ursina, já entendi. Vou cuidar de passar umas amostras grátis pra senhora. Fica aí trocando um dedo de prosa com a Tiburtina que eu vou lá buscar. (SAI) TIBURTINA - E a velha sua mãe? URSINA - É aquelas queixa véia de sempre, cumadre Tributina: quemadêra, batimento pru dentro, furmigueiro no corpo, medo na cabeça... Na sumana, ela cumeu uma carne de porco mei passada... qui essa véia ficou ruim dum jeito! Perdeu a suspiração e a fadigação muntou (RESPIRANDO COM DIFICULDADE). Eu anté falei: e essa véia qui num manhece? TIBURTINA (ASSUSTADA) - Morreu? URSINA (FAZENDO O SINAL DA CRUZ) - Salve Rainha da Guarda, cumadre, qui ela inda tá na labuta. Foi só ispritação minha. Aí foi reméido e mais reméido; me insinaro dá pra ela uma dose de carbureto; dispois dei um chá de adjunto-de-horta com treis pingo de azeite doce. Miorou... Mais ela num tem sufrimento de ficá na cama... num leva nada dessa vida (FAZENDO VÔMITOS), não tem apitite pra cumê (JOÃO ALVES VOLTA). Será qui ela pode tomá chaculate de leite de bode? (VIRANDO-SE PARA JOÃO ALVES) Não faz mal não, doutore? JOÃO ALVES - Leite de bode? URSINA - Pois, antão, será qui ela pode tumá chaculate de leite de bode? JOÃO ALVES - Pode sim, mas dê pra ela esse xarope também (ENTREGANDO). Toma, esse aqui é pra senhora sarar a disenteria. URSINA - O sinhô é um santo, doutore. Quanto é qui foi o gasto? JOÃO ALVES - Ora, Siá Ursina, se eu não cobro de pessoas estranhas, ia cobrar logo da comadre? É nada não. URSINA - Pois qui São Judas Tadeu abençoa o doutore, a cumadre Tributina e os minino todo. Adeusinho, doutore. Adeusinho, cumadre. (SAI) TIBURTINA (LENDO UM JORNAL QUE ACABARA DE RECEBER) - Olha, João, a Gazeta do Norte assumiu mesmo a defesa da Concentração Conservadora. São uns canalhas! O Ari passou pro lado deles e está dizendo aqui que o Conde Dolabella Portela vai mandar um especial de Bocaiúva, carregado de trabalhadores, todos armados até os dentes. Acho melhor a gente ficar prevenida, com uns cabras protegendo a casa. JOÃO ALVES - O Melo Viana vem sozinho? TIBURTINA - Não, quem chefia a caravana é o Carvalho de Brito. Vem também o Fleury da Rocha, secretário de Melo Viana. Fora os puxas... Pode deixar, João, nós vamos mostrar a eles com quantos paus se faz uma canoa... JOÃO ALVES (SEGUINDO TIBURTINA, QUE SAI RESOLUTA) - Calma, minha nega, calma! x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x DÉCIMO QUADRO ((EM CENA MARA, AYRAN, VIRGÍNIA E MARISA, QUATRO MOÇAS DECENTÍSSIMAS, QUE DESFILAM PELA RUA QUINZE) MARA - A cidade tá diferente hoje, né Ayran? AYRAN - Tá todo mundo envolvido nesse tal Congresso do Algodão. MARISA - Congresso do Algodão, nada, que meu paínho falou que esse tal de Melo Viana vem aqui só pra fazer propaganda política. VIRGÍNIA - Logo hoje que eu saltei o muro do Colégio Imaculada pra vim ver o movimento na Rua Quinze... MARISA - Ah, hoje vai ter seresta na casa de Basílio de Paula, com João Chaves na flauta, Sinval Fróis no violão, Zé Coco no cavaquinho e Lauzinho na guitarra. Fora as vozes de Dulce Sarmento, Niquinho Teixeira, Pedro Boi e Fatel... AYRAN - A cidade tá crescendo... até Araci de Almeida foi contratada pra cantar no Clube Minas Gerais... VIRGÍNIA - Será que você não tem vergonha de lembrar daquele cassino não, Ayran? Aquilo é coisa de homem beberrão e mulher sem pudor. MARA (MOSTRANDO DUAS MULHERES QUE PASSAM AO LARGO) - Marisa, Virgínia, Ayran (COCHICHANDO): cês sabem que Montes Claros tem 1.500 mulheres da vida matriculadas na polícia? É... e todas atraídas pelo (GESTICULA) trem-de-ferro... MARISA - Ih, Mara, você tá tão sem assunto. Vamos ver o chafariz do Largo da Matriz? VIRGÍNIA - Ver o quê? Eles inauguraram o chafariz e até hoje não saiu uma gota d'água... (SAEM) x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x DÉCIMO PRIMEIRO QUADRO MELO VIANA (ENTRANDO CARREGADO POR UMA CARAVANA, AOS GRITOS DE "VIVA MELO VIANA", "VIVA MELO VIANA") - Meus correligionários, venho visitar os irmãos do longínquo rincão de Minas, em nome de sua excelência o dr. presidente Washington Luís, mais para rever os amigos do que à caça de votos. Sou, de fato, candidato ao governo de Minas, lançado que fui pela Concentração Conservadora, mas nada mais almejo, nesta bela cidade, senão o sucesso do já vitorioso Congresso do Algodão. (PALMAS) (JOÃO ALVES APARECE AO FUNDO E FICA OBSERVANDO). CARVALHO DE BRITO - Agora, vamos marchar em direção ao centro da cidade (OS ATORES SE ENFILEIRAM ATRÁS DELE, QUE SAI GRITANDO) - Quem vai fazer a felicidade do Brasil? TODOS - É Júlio Prestes, é Júlio Prestes! CARVALHO - Viva o dr. Júlio Prestes! TODOS - Viva, viva, viva! CARVALHO - Quem vai fazer a felicidade de Minas Gerais? TODOS - É Melo Vianna, é Melo Vianna! CARVALHO - Viva a Concentração Conservadora! TODOS - Viva, viva, viva! CARVALHO - Morra a Aliança Liberal! TODOS - Morra, morra, morra! (JOÃO ALVES ADIANTA-SE. TODOS SE CALAM. MAS ALGUÉM JOGA UM TRAQUE A SEUS PÉS). JOÃO ALVES (LEVANTANDO O BRAÇO) - Viva a Aliança Liberal! (VAIAS) (QUANDO O TRAQUE EXPLODE, JOÃO ALVES TOSSE SECO, LEVA A MÃO À BOCA E FAZ QUE VAI CAIR, EMBORA NÃO ESTEJA FERIDO. SEUS AMIGOS, QUE ESTÃO DENTRO DE SUA CASA, NÃO ENTENDEM O INCIDENTE E COMEÇAM A DISPARAR SARAIVADAS DE BALAS. OS MANIFESTANTES CORREM, MAS AINDA ASSIM MORREM: Dr. RAFAEL FLEURY, JOÃO SOARES DA SILVA, MOACIR DOLABELA E D. IRACI DE OLIVEIRA NOVAIS. UM MENINO DE 12 ANOS, QUE OLHAVA A PASSEATA, TAMBÉM CAI MORTO. HÁ INÚMEROS FERIDOS, INCLUSIVE MELO VIANNA, QUE LEVOU TRÊS TIROS). JOÃO ALVES (GRITANDO PARA O SEU GRUPO) - Parem com isso, parem com isso! Há mulheres, há crianças! Pelo amor de Deus, parem! (CESSA O TIROTEIO). TIBURTINA (ENTRANDO AFLITA) - E agora, João? E agora? JOÃO ALVES - O Melo Viana está vivo ainda. Vamos tratar dos feridos. (OS CORPOS SÃO CARREGADOS POR ELE E SEUS CORRELIGIONÁRIOS). TIBURTINA - E os mortos? JOÃO ALVES - Os mortos? Ah, os mortos... Deus toma conta. x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x DÉCIMO SEGUNDO QUADRO PARTURIENTE (ENTRA DO OUTRO LADO, GEMENDO E LAMENTANDO, A MÃO APERTANDO A BARRIGA GRÁVIDA) - Ai, ai, ai. (FINGE BATER NUMA PORTA, A PORTA DA SANTA CASA. APARECE UMA MULHER) - Minha senhora, eu vou ter um filho! Não sou daqui, venho de longe e não tenho onde me agasalhar. Peço-lhe que me dê abrigo. EMPREGADA - Trouxe a guia? PARTURIENTE - Não senhora. Cheguei de fora ainda há pouco... EMPREGADA - Então, paciência! É impossível atendê-la. EMPREGADA - Disseram-me que era aqui a Santa Casa de Caridade... PARTURIENTE - E é, sim. Mas eu sou uma simples empregada e apenas cumpro as ordens que me dão. Nada posso fazer. PARTURIENTE - Pelo amor de Deus... (A EMPREGADA, EM RESPOSTA, VIRA-LHE AS COSTAS E SE RETIRA. A PARTURIENTE VOLTA A CHORAMINGAR, DESOLADA. DEBRUÇA-SE NO CHÃO E COMEÇA A CHORAR BAIXINHO). IRMÃ BEATA (CHEGANDO SORRATEIRAMENTE, PARA ACUDIR A MULHER) - Não se aflija, pobre mulher! (LEVANTANDO A PARTURIENTE). Entre, mãe desamparada! (CARREGANDO-A). Nós vamos atendê-la. (HÁ UM LIGEIRO BLACK-OUT, TEMPO SUFICIENTE PARA A PARTURIENTE LIVRAR-SE DO "FILHO", QUE AGORA ESTÁ NO SEU COLO, CHORANDO). MADRE (ENTRANDO EM MEIO AO CHORO DO RECÉM-NASCIDO) - Como lhe foi possível ter um filho aqui dentro? PARTURIENTE (AMEDRONTADA) - Foi uma bondosa Irmã que atendeu às minhas súplicas e me abriu a porta. MADRE - Disse... uma Irmã? PARTURIENTE - Sim, sim, uma Irmã. MADRE (APONTANDO PARA UMA IRMÃ QUE ESTÁ AO SEU LADO) - Foi esta aqui? PARTURIENTE - Não senhora. A que me atendeu era gorda, muito clara, de olhos azuis. MADRE (APONTANDO PARA UM PONTO IMAGINÁRIO) - Foi aquela daquele retrato ali? PARTURIENTE (COMOVIDA) - Foi esta sim! Deus que a abençoe. Foi esse anjo que teve piedade de mim, que me recolheu, que me ajudou, que me confortou. MADRE (APAVORADA) - Mas essa santa criatura já não existe. Essa é a Irmã Beatriz, a Irmã Beata, e ela já morreu... (LUZ APAGA NESTE SET E ACENDE NO OUTRO, PARA A INAUGURAÇÃO DA RÁDIO). DÉCIMO TERCEIRO QUADRO CHICO PITOMBA (ENTRANDO COM UM VIOLÃO ÀS COSTAS, AO LADO DE MANÉ JUCA, ENQUANTO OUTROS ATORES SE POSTAM NUM LADO DO PALCO, OUVINDO UM RÁDIO) - Rê, rê, cumpadre! MANÉ JUCA - Rê, rê, cumpadre! CHICO PITOMBA - Estamos aqui para a inauguração da Rádio Sociedade Norte de Minas, um empreendimento de... MANÉ JUCA - ... Jair de Oliveira. CHICO PITOMBA - E quem não tiver rádio em casa... MANÉ JUCA - ... é só ir lá na Alfaiataria Santos Dumont, de Jacinto Fagundes, dono do primeiro rádio receptor de Montes Claros. OUVINTE (FALANDO PARA O GRUPO QUE OUVE O PROGRAMA) - O progresso chegou pra valer. Já temos telefone, já temos água potável, luz e ruas calçadas. Hoje, temos rádio também. Só falta o Ateneu entrar no campeonato mineiro... CHICO PITOMBA - Ouvintes da Rádio Sociedade Norte de Minas, muito boa noite. TODOS - Boa noite! CHICO - Com a graça de Deus, estamos iniciando a apresentação de... MANÉ - Alma Cabocla. CHICO - Um programa dedicado à Catedral de Nossa Senhora Aparecida, o cartão postal da cidade, e ao nosso sempre querido Clube Montes Claros. MANÉ - Cê viu, cumpadre? O jornal "O Malho", do Rio de Janeiro, fez uma caricatura de dona Tiburtina atrás de um toco, com um trabuco na mão e um bornal de farinha de rapadura nas costas. CHICO - Povo perverso, né cumpadre? Logo dona Tiburtina, uma alma santa e caridosa. MANÉ - É, cumpadre, mas depois da Revolução de 30, uns cabras da peste andaram torturando muita gente lá no cemitero. E ainda empastelaram a "Gazeta do Norte", uai! CHICO - Ora, cumpadre Mané Juca, era só pra satisfazer a santa mulher. Cê não tá vendo que ela não ia mandar fazer uns desatinos desses? MANÉ - Vamos mudar de assunto, cumpadre Chico Pitomba. Que qui é qui nós vai cantá? CHICO - Deixa comigo, cumpadre Mané Juca. Eu puxo e dou o breque aqui na viola. (CANTANDO, ENQUANTO OS OUVINTES DANÇAM DO OUTRO LADO) - "Cumpadre, ancê que é fino,/Pica mais que arfinete,/Responda no sufragrante,/Que eu lhe dou um sabonete:/Pru qui é qui nesta cidade/Se sorta tanto fuguete?" MANÉ (TAMBÉM CANTANDO) - "Os fuguete de Montes Claro/Istora em quarqué função:/Quando vence o futebó/Ou quando hai coroação/Se chega a cocaína; /Quando se ganha inleição;/No dia dos viajante/Ou quando sai prucissão;/Nas fuguêra de São Pedro,/Santo Antone e San João". CHICO - Bunito, cumpadre! Daqui a pouco o Rui Muniz de chama pra TV Pequi, pra mode ancê fazê as modinha do forrobodó... MANÉ - Quer o quê, cumpadre! Prefiro fazê vestibular na Unimontes, passar em todos os cursos ou entrar no Partido Integralista do Armênio Veloso, qui foi mais esperto que Tadeu Leite. Se bem qui pulítica é arte do cão. Cê não viu o ajeito que fizeram pra eleger o Capitão Enéas? Seis partidos coligados, a força bruta da puliça e, do outro lado, só o dr. Alfeu Quadros e a buneca de Leonel Beirão de Jesus... CHICO - Nossa pulítica é de lascar o cano, né cumpadre? Pois não é qui o Coronel João Maia mandou falar ao Presidente qui Montes Claro não tem morféa só pruquê o povo usa urucum na cumida? MANÉ - Alegria mermo, cumpadre é o cassino. E o povo chupano picolé. E na Rua Quinze as muié... Puxa lá, cumpadre Chico Pitomba! CHICO (CANTANDO) - "Mas assunta qui inda farta/Mais motivos de alegria,/Pois fuguete na cidade/Se sorta de noite e de dia". MANÉ (CANTANDO) - "Fora isso, meu cumpadre,/Se sorta sem mais aquela,/Pru quarqué coisinha à-toa:/Quando casa uma donzela,/Quando nasce uma criança/Ou zé Mário vende sela". CHICO - Tem hora qui dá vontade de chorar também, cumprade. Quando lembro da tragédia das Canoa... JUCA - Qui mataram o Coroné Marciano, sua muié e a empregada... CHICO - Quando lembro do assassinato brutal de Fábio Martins e Cláudia Athayde, mortos a tiros e marteladas pela pulícia civil... MANÉ - Quando recordo das secas de 19, cum o povo passando fome e o boi morreno sem pasto... CHICO - Quando o cabo Santana morreu na Guerra, defendendo o Brasil contra os nazistas marvados... MANÉ - Quando lembro dos incêndios de Jabbur e da Casa Luso Brasileira... É, cumpadre, mas os motivo de alegria são maió. Cê lembra da colheita qui a puliça fez no treino do América Futebol Clube? CHICO - Pois foi, cumpadre! Tomaram 16 revórve e 12 faca dos atreta, qui só jogovam de carça cumprida... MANÉ - Ou quando o orgulho furmiguense pensa em Monzeca, Newton Prates e Robson Costa, penas de ouro do jornalismo; de Aderbal Sena, campeão mineiro de natação; de Ciro dos Anjos, nosso escritor maior; ou do Geraldo Freire, sem falá nos antigório, do tempo qui vovó tomava banho no cuité... CHICO - Vão pará puraí, cumpadre, qui isso aqui tá parecendo crônica sociá do Lazim Pimenta... ------ FIGUEIRA (CHEGANDO AO GRUPO QUE OUVO O PROGRAMA) - Qui disgraça é essa? ------ CHICO - Pois aqui vamos pondo um ponto finá, esperando vortá amanhã, se Teixeira Bastos assim o permitir e João Dutra deixá... MANÉ - Aqui se dispede... CHICO - Chico Pitomba... MANÉ - ... e Mané Juca. Rê, rê, cumpadre! ------ FIGUEIRA (PEGANDO O RÁDIO) - Parem com essa capetaria, qui isso é coisa de macumba, coisa de Chico Preto. JACINTO FAGUNDES - Seu moço, isso aqui é a maior invenção do século, antes do fax. É o rádio receptor, que chega nas ondas "artesianas", conduzindo o progresso. FIGUEIRA (MAIS CALMO) - E quem é qui tá dentro dele? (RISOS). JACINTO - Tem ninguém não, seu moço. Olha, não dá pra explicar direito não, mas é só rodar esse botão e sai um tanto de voz. Quer ver. (RODA O DIAL, SURGINDO A VOZ DE LUIZ TADEU LEITE). TADEU (GRAVAÇÃO) "Nós aqui, do Boca no Trombone, falamos, falamos, mas não tem jeito não. Tá uma confusão dos capeta. Antes, era só uma formiga que queria ser cidade. Pois dona Formiga deixou de ser povoado, virou vila, virou cidade, virou princesa, e tá essa desgraça aí. Os problemas se multiplicam, o prefeito não resolve nada, o povo fica neurótico, os doidos tomam conta das ruas junto com os camelôs, as favelas crescem em rítmo acelerado, o trânsito está caótico... Será que Figueira queria isso, minha gente?" (FIGUEIRA JOGA O RÁDIO PARA CIMA E SAI DE CENA). x=x=x=x=x=x=x=x=x=x=x=x DÉCIMO QUARTO QUADRO (TODOS EM CENA PARA VEREM O CASAMENTO) PADRE - Princesa Formiga Metrópole dos Claros Montes, é de livre e espontânea pressão que recebes em matrimônio Mr. Brown Montini Pierre de Bidon? PRINCESA - Sim, sim! PADRE - Mr. Brown Montini Pierre de Bidon, é de livre e espontânea vontade que recebes Princesa Formiga Metrópole dos Claros Montes como sua legítima esposa? BIDON - Yes... oui... yá... oh, si, si. PADRE - Que o homem não separe o que Deus uniu, a não ser em caso de divórcio. (ABENÇOANDO) - Eu vos abençôo em nome do... FIGUEIRA (APARECENDO SUBITAMENTE) - Padre Ivan, padre Ivan o sr. não pode celebrar este casamento, não! É uma traição, padre! Ela me traiu... ele também. Até hoje, nem o supermercado vendido por esse tal de Bidon foi iniciado... TODOS - Viche! PADRE - Por favor, retirem este moço do templo do Senhor! FIGUEIRA - Ela é uma interesseira, padre Ivan. Está casando apenas por interesse. Só porque ele é industrial e fala difícil. BROWN - Who is? Who is? Quem ser esse impostor? PRINCESA - Não sei, meu anjo. Juro que não sei? FIGUEIRA - Bruta! Pérfida! Traideira! Ingrata! Marvada! Rapariga do Bonfim! PADRE - Por favor, levem esse moço daqui. POLICIAL (CHEGANDO AO LADO DE OUTRO) - O senhor está preso? FIGUEIRA - Preso, eu? Mas o que que eu fiz? POLICIAL (AGARRANDO-O PELA CINTURA) - Deixa de conversa senão vou chamar o Bispo procê. FIGUEIRA - No tempo do Coronel Coelho e do Coronel Georgino não tinha disso não... (É EMPURRADO PELOS POLICIAIS) - Padre Ivan, padre Ivan, eu vou preso sim, mas, antes, eu queria recitar um poema de Augustão Bala Doce. PADRE - Que seja breve! FIGUEIRA (DECLAMANDO) - "Montes Claros, meu amor,/Minha vovó centenária,/Não deixem que te transformem/Numa puta mercenária". TODOS - Ah, ah, ah! (ENQUANTO RIEM, FIGUEIRA É ARRASTADO E LEVADO PRESO) PADRE - Silêncio! Nós, como fiéis seguidores das leis divinas, como sempre digo na Missa da Cura, devemos fechar os ouvidos às sandices desse mundo perverso. (VOLTANDO À CERIMÔNIA) - Eu vos abençôo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. TODOS - Amém! (APÓS SER CUMPRIMENTADO PELOS PRESENTES, JUNTAMENTE COM A PRINCESA, COM OS DEMAIS ATORES ABANDONANDO O PALCO) - Agorra, mim querer conhecerr seus intimidades... PRINCESA - Oh, meu amor, eu tenho tão pouco para lhe dar. Sou tão pobre, tão poeirenta, tão provinciana. BROWN - Non, non. Mim querer conhecerr suas pontos históricos (APALPANDO PARTES DO CORPO DA PRINCESA CONFORME A FALA), sua Alto dos Morrinhos, sua Morro do Frade, seu Lapa Grande. PRINCESA - Minha lapa? Oh, meu amor que veio de longe, minha lapa anda tão abandonada... Os Morrinhos agora são depósito de antenas parabólicas... O Morro do Frade foi invadido pelos alemães e virou Vila de São Francisco. Oh, meu bem que veio do paraíso, eu tenho tão pouco para dar e tanto para receber. BROWN - Enton dá cá minhas dólares. PRINCESA - Não, meu rei momo dos furúnculos semeados, assim não pode ser. Eu preciso de seus estímulos. Minha vida depende de seus dólares. Eu posso levá-lo ao Xandu, ao Borello's Grill, ao Lago do Sol, Automóvel Clube, Parque da Sapucaia... BROWN - Ser muita pouco... Mim quererr boates, motéis, muitas motéis. PRINCESA - Meu Deus, ele é tão exigente! Se ao menos a gente ainda tivesse a boate da Praça de Esportes com suas matinées dominicais... Meu bem-querer, vamos ao Casebre 13, ao Arrastão, ao Zepelão, ao Forró das Velhas... BROWN - Non, mim quererr sempre mais e mais. Mim insaciável. PRINCESA - Então vamos andar de elevador na Ciosa... BROWN - Oh, oh, oh, isto ser muito engarçada, mas mim quererr asfalto tombém, non? PRINCESA - Eu dou! BROWN - Mim quererr Universidade e cento e vinte colégios particulares... PRINCESA - Eu dou! BROWN - Mim quererr Conversatório de Música... PRINCESA - Eu dou! BROWN - Mim quererr cuba-libre, frente única, canga, mini-saia, um fota na vitrine do Café Galo... PRINCESA - Dou, dou e dou! BROWN - Mim quererr isenção fiscal, desconto na IPTU, 16 mansões na Ibituruna e... pê-qui! PRINCESA - Minha Nossa Senhora do Pé Gelado, logo agora que acabou a Festa do Pequi... GARÇOM (TRANZENDO UMA BANDEJA COM DUAS TAÇAS) - Aceitam um licorzinho de pequi? PRINCESA - Pequi? Verdade? Oh, sim, claro, claro. Meu bem, experimente! É uma delícia! Você nunca vai esquecê-lo. BROWN (SATISFEITO) - Que dilícia! Que saborr! Agorra sim, mim não mais sair de Monte Carlo (BEIJANDO O GARÇOM) - Tu ser um amorr. Querr emprego na fábrica de Corby? GARÇOM - Emprego, verdade? Pra fazer o quê? BROWN - Mim dar você misson estratégica: tu vais transformarr transítores, algodão, enzimas, macarron, porrcas e calcário em licorr de pêqui. GARÇOM - Mas isso é impossível, doutor! PRINCESA (PUXANDO O GARÇOM DE LADO) - Deixa de ser tolo, Belém! Você não queria fazer o seu pé-de-meia e sair do Mangueirinha? Pois diga que é possível, homem! GARÇOM (FALANDO A Mr. BROWN) - Claro, claro, é possível, doutor... Eu sei fazer licor até com lentes e miscrocópios. Sou capaz de elaborar a mais fina bebida com bucho de boi e, ainda por cima, fazer tira-gosto de aro de bicicleta... BROWN - Okapa, macanudo, okapa! Setorr de mão-de-obra aqui serr muita desenvolvido, non? PRINCESA - E baratíssimo, tudo na base do meio salário. BRWON - Ter mais pêqui? GARÇOM - Vamos direto à fonte. Acompanhem-me até a casa de dr. Maurício. (SAEM) x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x DÉCIMO QUINTO QUADRO
PACA (TRAZENDO FIGUEIRA) - Quem matou Deli e queimou seu corpo com cartazes da Souza Cruz? FIGUEIRA (BALBUCIANDO) - Juro que não sei, juro que não sei. Já disse que não sei. PACA - Quer apanhar mais? FIGUEIRA - Não, seu delegado. Não! Eu não agüento mais... PACA - Então, confessa! FIGUEIRA - Eu não sei. São os mistérios de Montes Claros. PACA (AGARRANDO-O PELO PESCOÇO) - Quem mandou matar Olímpio Campos, hein? Quem foi? FIGUEIRA - São os mistérios, seu delegado. PACA - Mentiroso! Quem foi que mandou matar Izael e Ana Maria? FIGUEIRA - Foi... foi... foi o veado. PACA - O veado??? FIGUEIRA - Pois os bicheiros não estavam atrás? Então foi o veado que mandou... PACA - Quem mandou matar Cláudia Ataíde e Fábio Martins? FIGUEIRA - Aí, não, seu Paca. Em briga de família eu não entro... PACA - Quer voltar pra lá? FIGUEIRA - Não, pelo amor de Deus, não! Pau-de-arara não... PACA - Então diga onde está Zinho... FIGUEIRA - Eu não sei, seu Paca. Pela alma de minha mãe, eu não sei. Deve estar enfiando bufa no cordão... PACA - Ou você põe tudo em pratos limpos ou vai levar mais bolacha na cara! FIGUEIRA - São os mistérios, seu delegado. São os mistérios de Montes Claros... PACA - Deixa de conversa fiada, seu imbecil! Quem foi que mandou matar Teninha? FIGUEIRA - Ninguém mandou não, seu Paca. Ele morreu afogado. PACA - Morreu o quê? FIGUEIRA - Bem, bem, são os mistérios do São Francisco... PACA - Quer levar uma... FIGUEIRA - Não, não, ponta de cigarro não. Eu confesso. PACA - Então faça o favor de abrir o bico. Quem matou Teninha? FIGUEIRA (CANTANDO) - "Quem matou Papai Vovôô?/Quem matou Papai Vovôô?/Foi um grande matadô,/Foi um grande matadô... (É LEVADO PARA OS BASTIDORES, CANTANDO). x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x DÉCIMO SEXTO QUADRO MOACIR (ENTRANDO COM TADEU E PEDRÃO) - E agora, Tadeu? E agora, Pedrão? TADEU - O progresso é irreversível, Moacir. Com o casamento de Mr. Brown com a Princesa, Montes Claros vai ser elevada à posição que realmente merece no cenário nacional. PEDRÃO - Certo, Tadeu, mas devemos cuidar para que esse progresso não represente a falência do meu povo. MOACIR - Deixa de ser demagogo, Pedrão. Povo sem progresso é povo subdesenvolvido. E se a Sudene veio, nós temos que ampará-la. TADEU - Eu concordo com Moacir. E se o Distrito Industrial virar um cemitério de indústrias? Os empresários vêm de fora, pegam o dinheiro, somem no mundo e deixam as empresas fechadas. Aí, sim, é que o povo vai passar fome mesmo. Fora os flagelados que virão de fora engrossar o bolsão de pobreza. PEDRÃO - Se já temos Universidade com mais de dois mil alunos, o museu folclórico de Zezé Colares e até o Centro Cultural de Ildeu Braúna, devemos lutar para que nossos filhos tenham um futuro tranqüilo. E só conseguiremos isto se disciplinarmos o crescimento da cidade. MOACIR - Então vamos ter que asfaltar todas as ruas, acabando de vez com a poeira e os buracos. TADEU - Eu acho melhor usarmos umas pedrinhas, pois isso dará mais emprego para os pobres e reduzirá as altas temperaturas provocadas pelo asfalto. Depois a gente passa uma borra de asfalto por cima. PEDRÃO - Isso mesmo, Tadeu. Asfalto só serve pra incentivar os ricos a correr mais e matar os pedestres que atravessarem a pista. TADEU - Outra grande obra será a "cirurgia plástica" recomendada por Simeão Ribeiro. Vamos contratar dr. Carlos Muniz e mandar que ele tire todas as rugas dessa velha assanhada. Afinal, dizem as projeções do DataFolha que teremos 500 mil habitantes no ano 2.000. MOACIR - Você me decepciona com suas utopias, Tadeu. Daqui até o ano 2.000 vai rolar muita água debaixo da ponte. Está muito longe pra gente pensar nisso agora. Como diz Carlos Versiani, nós não podemos usar subterfúgios. Nós temos que atacar o problema de frente. BROWN (CHEGANDO TODO PROSA) - Posso saberr o que discutem? MOACIR - Estamos tentando dar ao senhor uma metrópole que possa comportar todas as suas fábricas... TADEU - E os pepinos também... BROWN - Isto serrr muito boa, mas mim não sentirr providências para trazerr televisão. PEDRÃO - Já está quase resolvido; o Ubaldino Assis, o Waldemar Haiden e o Antônio Ramos captaram a imagem e o som da TV Itacolomi lá no alto do Pentáurea. Agora só faltam a Globo e a Vila Rica. BROWN (ARROTANDO) - É a revolta do pêqui, acho que é o pêqui... MOACIR (TAPANDO O NARIZ) - Já mandamos fazer, especialmente para o senhor, um motel nos mais modernos padrões. BROWN? - Só uma... PEDRÃO - É... é... bem... se o senhor quiser, a gente manda fazer mais uns trinta. BROWN - E os muchachas? TADEU - Esta parte está resolvida também: Ainda hoje o Magnus Medeiros vai fazer uma festa apenas com uns brotinhos daqui, ó. BROWN - Não serr bem isso a que mim referirr. MOACIR (RINDO) - Já sei, já sei, Mr. Broa. Mas nós temos a Roxa, Anália, Edna, Leobina, fora o João Pega Mal, a Zinha e a Valmira. PEDRÃO - O trotoar na Praça Dr. Carlos, como o Míster exigiu, também já é uma realidade. BROWN (EXULTANTE) - Realmente, acho que fiz um ótima opção ao escolherr Monte Carlo (COCHICHANDO) - Seria demais fazer uma campo de aviacion lá naquela alto do Ibituruna, perrta de meus mansões? MOACIR - Não, isso não. Nós já mudamos a pista do antigo aeroporto, onde desciam aviões da Panair. O Nathércio França sabe como era difícil descer na pista antiga. Hoje temos pista internacional e até táxi aéreo. Só faltam os aviões da Varig. Não fica bem fazer aeroportos doméstticos. TADEU - Se a gente atender sua reivindicação, o Waldir Sena mete o pau no Jornal de Montes Claros. PEDRÃO - Se bem que Jorge Silveira defende no "Diário", mas temos que preservar a moralidade administrativa. BROWN (LEVANDO A MÃO À CABEÇA) - Meu cabeça estarr doente. Acho que foi a cheiro do pêqui. Aqui non ter cantadores non? MOACIR - Viche! Temos o Beto Guedes, Aline Mendonça, Djalma Lúcio, Jorge Santos, os irmãos Elthomar e Smoro da Ponte... |